Opinião
Males concentrados - Editorial
Segundo pesquisadores, nos próximos 10 anos, cerca de 388 milhões de pessoas deverão morrer antes da hora por conta de doenças que poderiam facilmente ser prevenidas. E mais, muitos dos males considerados ?doenças de ricos? estão sendo detectados como causas de mortes nos países mais pobres. Pobre pobreza: além de suas mazelas milenares, a modernidade parece estar distribuindo os sofrimentos ?dos ricos? em lugar de partilhar a riqueza. Fumo, drogas, dieta ruim, falta de exercício físico, obesidade estão na lista dos motivos das mortes prematuras nos bolsões globais da miséria. Esse problema foi tema de artigo publicado, por pesquisadores canadenses, na prestigiada revista científica Nature. Os cientistas alertam para o grande crescimento de óbitos nos bolsões de pobreza por ?ataques cardíacos, derrames cerebrais e diabete, causadas por doenças crônicas não infecciosas, acabando (prematuramente) com mais do dobro de vidas do que outras que são infecciosas, como Aids, malária ou tuberculose?. Os autores da pesquisa, porém, se animam: ?Existe solução fácil para prevenir estas enfermidades não transmissíveis?. Naturalmente, do ponto de vista da ciência. Do ponto de vista da política, no entanto, nada é tão fácil assim. Um dos exemplos de causa mortis relacionados pelos estudiosos é o fumo, que provoca cerca de cinco milhões mortes prematuras ao ano, podendo alcançar aos 10 milhões de mortes anuais em 2030. Sofrendo redução de mercados nas áreas menos pobres, onde as campanhas antitabagistas têm crescido e obtido sucesso, as empresas de tabaco concentram seus esforços (com sucesso) na ampliação do número de fumantes nos bolsões menos favorecidos. Mais uma vez, desprotegidos, os pobres são duplamente castigados. Apenas com investimentos públicos, ampliação das oportunidades de emprego e educação esse fantasma poderá ser espantado.