Opinião
Requisitos fict�cios, cargos desprestigiados
| Antonio Xisto Mello * O jornal Folha de São Paulo, edição do dia 11 deste mês de novembro, publicou matéria rica em dados sobre as composições dos Tribunais de Contas brasileiros. Os números expostos pela reportagem demonstram que ex-políticos ou pessoas vinculadas familiar ou partidariamente a políticos da ativa são maioria no desenho dessas Cortes. A tal matéria revela que de 189 conselheiros existentes apenas 19 são técnicos, sendo certamente daí que advêm a retumbante ineficácia e a reconhecida timidez das ações desses órgãos em direção a seus potenciais alvos, que são os gestores públicos desonestos. Passados onze dias desde a publicação desses lamentáveis números pela Folha, a Polícia Federal desencadeou nova operação e prendeu o presidente do Tribunal de Contas da Bahia. Coincidência? Não. Essa prisão é simplesmente conseqüência de mais uma dentre as inúmeras facetas abjetas que formam o sistema de apropriação de cargos públicos por ?autoridades?, que neles, principalmente os de caráter vitalício, vêem a cômoda e indecente possibilidade de garantir um bem remunerado ganha-pão aos que lhes são caros, que passam, também e literalmente, a ser caros à sociedade que os pagará. Esses procedimentos para preenchimentos de vagas em Tribunais chegam a ser ofensivos a qualquer inteligência mediana; mas não deixam de gerar diversão com o que contêm de grotesco, de ridículo. Ou será que não desperta o riso ouvir políticos dizendo não haver nada de imoral em práticas cujo teor de imoralidade só encontra paralelo no teor de sacarose da boa cana-de-açúcar, para ficar em um exemplo tão docemente nosso? Impossível também não liberar uma boa gargalhada ao verificar como se desenvolvem as ?rigorosas? sabatinas, capazes de atestar a presença de requisitos como o notório saber jurídico, contábil, econômico, financeiro ou de administração pública de candidatos que se dispõem a, em troca de exposição na mídia, poder e dinheiro, participar de um jogo de cartas marcadas pela chancela antidemocrática dos que, eleitos por um exército de ignorantes, escancaram seu despreparo e pobreza de espírito público, e protagonizam seguidas óperas-bufas para uma entediada e apática platéia social, a quem aparentemente nada mais consegue indignar. O mais triste é constatar que essa toada nociva à formação do caráter de um povo deve continuar, pois os políticos mais jovens parecem não estar dispostos a eliminar métodos antiquados e condenáveis de atuação. (*) É procurador federal.