Opinião
Not�rio dessaber
| Ronald Mendonça* Considerado o ?Pai da CPMF?, o acreano Adib Jatene parece gostar de uma boa briga. Recentemente foi notícia nos principais jornais do País ao ser surpreendido com o dedo em riste escancarando o fato de que ricos não pagam impostos neste País. Defensor da permanência do imposto sobre o cheque, o ilustre médico esquece que, a despeito de aparente insonegabilidade, o tributo é repassado ao consumidor de todas as classes. Ou seja, é uma falácia afirmar que é ?imposto de cheque? apenas. Na realidade, o que mais nos chateia é ter a absoluta convicção de que o suado dinheirinho será destinado a financiar as mil e uma mordomias federais, estaduais e municipais deste País. São milhares de aspones oficiais e oficiosas espalhadas Brasil afora onde se refestelam os bravos e fiéis companheiros (ontem, os tucanos). Para completar, a corrupção anda tão deslavada, a ponto de se dizer, sem medo de errar, que grossas tramóias assinam ponto em toda e qualquer obra pública deste País. Na verdade, eu quero mesmo falar um pouco sobre o doutor Adib. Formado na USP, é possível que Jatene, em algum momento, tenha tido doutor Zerbini, o catedrático da área, como seu guia espiritual. Contudo, insuperáveis divergências (egóicas?) mantiveram, durante muitos anos, o ?Pai da CPMF? longe do dia-a-dia da USP. Nem por isso brilhou menos. Inteligente, criativo e obstinado, desenvolveu técnicas cirúrgicas revolucionárias que o transformaram em um dos mais respeitados cardiologistas do mundo. Com a aposentadoria do professor Zerbini, abriu-se a corrida para sucedê-lo. Por motivos óbvios, Adib Jatene não era o preferido do velho mestre. Não foram poucas as manobras para evitar a poderosa concorrência. É que os anos de ausência da USP tiveram um preço: Adib Jatene, não obstante belíssimo currículo, carecia das condições formais (livre docência ou doutorado) para disputar uma cátedra. Foi nesse momento que apareceu a figura jurídica do ?notório saber? que permitiria a inscrição. Quem, de sã consciência, poderia negar ao grande Jatene o direito de disputar a vaga de Zerbini? Vitorioso, Adib deu novo impulso ao ensino da cirurgia cardíaca, elevando ainda mais o nível de qualidade da especialidade. Tudo leva a crer que o conceito de ?notório saber? ? pelo menos entre nós ? foi revisto e ampliado. Desnudado da nobreza da finalidade que elevou o cardiologista Adib Jatene ao fastígio da vida acadêmica, o ?notório saber? de Alagoas soa como uma terrível gozação. (*) É médico e professor da Ufal.