Opinião
O fundo da trag�dia: o sil�ncio de Deus
| Dom Fernando Iório * Deus é Aquele que silencia e por isso nos desconcerta. Deus é Aquele que, desde o princípio do mundo, se cala, como um fundo da tragédia, declara Unamuno. Nem por isso deixei de procurá-lo. Acossado pela sede, percorri vales e estepes em busca de uma fonte. Inútil: não vi água alguma. Parece-me ouvir um coro a cantar: caminheiro, se há sede, tem que existir uma fonte. Caminhei: cruzei vales e colinas e gritei, no mais profundo do meu ser: ? Onde se encontra Aquele a quem todo meu ser procura? E o mundo inteiro tornou-se uma resposta universal: o vento sussurrava, os rios cantavam, riam as estrelas ? as nuvens perguntavam, a brisa respondia ? mas o Senhor se calava. Continuei a perguntar: onde se encontra Aquele que busco, desde a aurora? ? Para além das estrelas azuladas? Naquele risco que parece tocar o firmamento? No rumor dos bosques? Na solidão última do meu ser? Outra vez, o silêncio ergueu sua cabeça sobre as pedras obstinadas. Da aurora ao pôr do sol, encheu-se o planeta de perguntas sem respostas: ? Onde estás, Senhor? Por que silencias? Porventura não sou eu teu eco? Por acaso não sou a voz de tua voz? Sou uma fagulha de teu fogo. Por que não me transformas naquela antiga sarça que ardia sempre e não se consumia? És água imortal, por que não sacias, uma vez por todas, a minha sede? Tu és o Mar, eu sou um inquieto riacho e, às vezes, um rio corrente, procurando o regaço de tuas ondas. Sim, Tu és o Mar, eu sou a praia: inunda minhas areias. Eu Te chamo e Te reclamo. Eu te afirmo e Te confirmo. Voei, a mais voar ? para além das montanhas, aonde não chegam os condores. Desde adolescente, habita nas profundezas do meu ser, a força de contradição que me perturba e me sossega e nunca me deixa em paz, mas sempre me deixa a paz. Molesta-me como a febre e refresca-me como a sombra. Não deixa de ser agonia e êxtase. Não posso jogá-la fora, porque veio ao mundo comigo e vai comigo para a sepultura. É algo tão meu como o meu sangue. Uma coisa é certa: não posso viver sem meu Deus. Este é o maior presente de minha vida. Tenho uma inabalável certeza: Deus é e está comigo. Mas, nunca vi o esplendor do seu Rosto. Entretanto, há, dentro de mim, alguma coisa que me diz da existência desse cintilar divino, no âmago do meu ser. Trata-se de uma certeza mais ?certa? que as evidências geométricas. (*) É bispo emérito de Palmeira dos Índios e membro da Academia Alagoana de Letras.