Opinião
O cabal�stico sete
| Ronald Mendonça * Diz-se que o mundo foi feito em seis dias. No sétimo, Deus teria parado para descansar. Embora duvide-se da teoria criacionista, não há como negar que o modelo bíblico guarda uma seqüência lógica. Sim, porque sendo Deus o autor, poderia fazê-lo num único instante. Feito de uma vez e a toque de caixa, certamente nem precisaria do sétimo dia para o merecido relax. De qualquer forma, entre trabalho e repouso foram sete dias. O número sete seria repetido nos sonhos faraônicos das vacas gordas e magras, ocasião em que se apelou para as virtudes premonitórias do escravo José, o do Egito. O bom José, como é do conhecimento geral, por conta disso, terminou ministro do abastecimento. Quantas vezes deve-se oferecer o sempre complicado perdão? O leitor talvez esteja esquecido, mas Jesus recomendou que o praticasse nada menos que as cabalísticas sete vezes setenta e sete. O malvado meio-touro Minotauro no seu misterioso labirinto alimentava-se periodicamente de sete rapazes e sete moças, sina que até hoje perduraria não fora a coragem e astúcia do herói grego Teseu, que acabou com a festa da temida fera. O apetite pantagruélico despertaria a Igreja para os chamados pecados capitais, coincidentemente enumerados até o sete. A despeito das ameaças de danação, esses pecados, além de praticados larga mano, são fontes inesgotáveis de estudos e fantasias. Aliás, sobre o tema, o escritor alagoano Carlito Lima acaba de lançar saboroso ensaio. Entre tapas e beijos a humanidade caminhou. Povoada de duendes e feiticeiros, a longa noite da Idade Média criaria as assustadoras histórias do Barba Azul e de Branca de Neve e os sete simpáticos anões. Rico e desprovido de senso ético, psicopata sádico, com requintes perversos, Barba Azul atiçava a curiosidade feminina penalizando com a morte as desobedientes. Foram sete as esposas trucidadas, até encontrar o merecido castigo. Alvo do despeito da madrasta, uma vaidosa bruxa travestida de bela, a graciosa Branca de Neve foi resgatada na floresta pelos sete anões. Vítima de uma maçã envenenada, não fora o beijo revitalizador do príncipe, certamente Branca ainda estaria mergulhada no sono cataléptico. O sete chega aos nossos dias. Esta semana, para escapar do segundo processo de cassação, o senador alagoano teve que se defender de acusações elencadas pelo relator Jefferson Perez. Sem entrar nos méritos do litígio, o fato é que a peça acusatória constava de sete itens. (*) É médico e professor da Ufal.