Opinião
Volunt�rios?
VALMAR BUARQUE * Um conto árabe conta uma história bastante interessante, que faz com que venhamos a pensar na situação que as entidades não-governamentais estão passando nesse momento e passarão por muito tempo, se não for modificada a lei de trabalho voluntário. ?Uma certa manhã, um conhecido ladrão entra no tribunal com uma perna engessada, logo procura o rei e declara que, passando por uma casa, ocupado com seus próprios afazeres, percebeu que a janela encontrava-se visivelmente destravada, e logo não resistiu a um convite como este. Mas, quando estava ainda passando pela janela o parapeito cedeu, caí no chão e como se pode ver, quebrei a perna. Agora exijo justiça!? É assim que procede uma minoria de pessoas que vêem nas ONGs, entidades filantrópicas, casas de caridade, uma oportunidade de justificar o fato de que trabalhando (viu a janela aberta) como voluntário, posteriormente pode buscar na Justiça seus pretensos direitos. No seu entender (ao quebrar a perna) foi ?iludido? e ?não percebeu? que ao se apresentar como voluntário, estaria abdicando de alguns direitos, que na verdade são pertinentes apenas a empresas comerciais e nunca a entidades sem fins lucrativos (quando o parapeito cedeu). Continuando o conto, ?o rei se ajeitou na cadeira, alisou a barba e mandou que o dono da casa fosse intimado a comparecer imediatamente. ?Preste atenção, esbravejou ele logo que o dono chegou ? sua janela quebrou a perna deste homem quando ele tentava entrar na sua casa. O que o faz pensar que pode expor o público ao perigo de uma janela defeituosa?? Ora, o pobre dono da casa nunca tinha estado diante de um rei e revirou os miolos à cata de uma resposta. Da mesma forma procuramos justificar a essência e relevância para toda a sociedade do nosso trabalho assistencial para com os meninos de rua, idosos, pobres, doentes, etc... e da importância do trabalho voluntário tão necessário e imprescindível na manutenção dessas entidades e da forma espontânea, com que essas pessoas se apresentam para prestar esse serviço?. Da mesma forma o proprietário se eximiu da culpa e justificou ? não é culpa minha, paguei um bom dinheiro ao carpinteiro para construir a janela que não desmoronasse. - Tem razão! Tragam o carpinteiro ? esbravejou o rei do alto da sua bancada. O guarda foi buscar o carpinteiro ? como você ousa construir uma janela capaz de quebrar a perna de um homem? ? vociferou o rei ? qual é o seu problema? O carpinteiro estremeceu e alternou diversas vezes o pé de apoio. ?Majestade, talvez eu não tenha construído a janela tão bem quanto devesse, mas não foi culpa minha. A verdade é que estava me sentindo mal no dia em que a montei. Eu tinha comido uma torta de uma padaria e fiquei com dor de estômago?. Como o dono da casa, nós ? as instituições ? nos baseamos, ao acatar o trabalhador voluntário, numa lei federal (nº 9.608 de 1998), assinada pelo presidente FHC. Ao entrar na instituição, o voluntário assina um documento onde é colocado para ele a íntegra da lei. Mas depois do trabalho realizado, muitos se dirigem à Justiça do Trabalho, pleiteando direitos que não lhes são devidos em função da referida lei, que estipula as condições do trabalho voluntário. De volta ao conto ?o rei deu com o punho na mesa. ? Vamos chegar à raiz desse problema ? tragam aqui o padeiro. ?Ouvi dizer que o senhor anda fazendo tortas ruins ? disse o rei ? o carpinteiro diz que você vendeu uma torta que lhe fez mal, o que fez com que a janela ficasse ruim o que quebrou a perna deste homem?. A história continua listando ?responsáveis? pelo acidente, e o fato de o acidentado ter tentado um roubo é passado para segundo plano. No fim, o rei chama a atenção de todos os envolvidos, manda que o padeiro preste atenção às suas tortas e que o carpinteiro consertasse a janela e que o dono a mantivesse trancada. Mas uma tranca não significa nada para um ladrão e este logo que teve a perna sarada, retornou à casa e, sabendo que a janela estava segura agora, arrombou-a, entrou na morada alheia e levou o que quis. Parece a situação das entidades frente aos falsos voluntários. (*) É DIRETOR DO INSTITUTO CATARSE