Opinião
Deu cupim no Pa�s
| Ronald Mendonça * Enquanto padre Lancelotti era condecorado no Palácio do Planalto pelo conjunto de suas obras, denúncias de vazamento provocaram a anulação das provas do exame da OAB. Como sabem, após a formatura, bacharéis em direito são obrigados a se submeter a uma espécie de ?exame de suficiência? para avaliar conhecimentos técnicos (mínimos?) que autorizam o neófito a exercer a profissão. Considerado uma ?conquista? que valoriza a classe, não é a primeira vez que o exame da OAB passa por esse vexame. É que com a proliferação de arapucas no ensino do ofício, carradas de pseudo-advogados são lançadas semestralmente, não causando espanto que por debaixo (e por cima) dos panos haja clientela disposta a tudo para garantir a aprovação. Evidente que não é um ?Zezinho? qualquer que tem prévio acesso às provas da OAB. No fim, é um mercado ilícito como tantos outros. Na realidade, a rede de baixarias no ensino não começa, muito menos termina, no exame da Ordem. Sem perder tempo nos lamentáveis cursos fundamental e médio, não é de hoje que se sabe que o ingresso nas universidades pode ser conseguido por vias heterodoxas. E aí incluam-se vagas em faculdades de medicina. O fato é que as suspeitas de fraudes na OAB e as acusações de pedofilia de Lancelotti, que tanto chocam a moral cristã nacional, nada mais são que pontas de icebergs. Poderíamos falar sobre os esquemas da dupla dinâmica Sarney/Murad (o genro) e de Fernando Henrique e o estereotipado Eduardo Jorge; de parte do empresariado atolado em falcatruas; dos doces anões do orçamento; nos maestros Dirceu, Delúbio, Silvinho, Genoíno et caterva; nos apóstolos do inigualável Paulo Salim Maluf; nos dignos membros do judiciário, enrolados até o gogó com o crime organizado; de médicos que aplicam terapia em defuntos; nos supérfluos e perdulários Tribunais de Contas; nos servidores públicos que chegam puxando a cachorrinha e saem milionários... E por falar em saudade, onde andará o charmoso Severino Cavalcante? No fundo, no fundo, o estupro de 200 milhões patrocinado pelo honrado legislativo alagoano, onde certamente não existe nenhuma carmelita descalça, não deixa de ser uma forma inteligente de aliviar o trabalho da Receita Federal. O raciocínio é cristalino: já que boa parte dos impostos extorquidos da classe média é remetida às contas correntes dessa mesma turma, nada mais lógico que tentar poupar o órgão da chateação e se antecipar. (*) É médico e professor da Ufal.