Opinião
A falsidade do par�grafo
| Sérgio Costa * Já li e ouvi várias vezes o povo ser condenado por todos os erros políticos que acontecem no nosso País. Decorei a sentença: a culpa do Brasil ser o que é, é do povo. Não concordo. Trata-se, a meu ver, da mais pura insensatez. É mais fácil criticar o povo do que contrariar os interesses de quem manda no País. Na verdade, leitor, fomos acometidos pelo mal da falsidade, um dos traços mais obscuros do poder. Explico: para justificar que isso aqui é uma república, assinaram uma lei segundo a qual o povo manda em tudo. Pura miragem! Leia o parágrafo único do artigo 1º da nossa Constituição e tire suas conclusões. ?Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos...? De acordo com o que está escrito, o povo é o soberano. Logo, as leis feitas em seu nome deveriam ser respeitadas. Mas não é bem assim. Leia o que diz Millôr Fernandes: ?A lei é uma forma mais ou menos hábil de burlar a justiça?. Façamos uma experiência com as reflexões do nosso consagrado jornalista. Urge testarmos a veracidade do parágrafo. Pois bem, quando os maus representantes da república roubam as riquezas do povo, quais as providências que deveriam ser tomadas? Caçar imediatamente as suas procurações e reaver o objeto do roubo. Claro que a recíproca é verdadeira, ou seja, se o povo não consegue exigir essas providências é por que não manda em nada. Se não manda e não sabe como impedir ou revogar decisões arbitrárias de quem manda não pode ser condenado. Sim, claro, mas quem manda, então? Ora, quem manda é quem está acima da lei, quem comete crimes e não vai para a cadeia, quem recebe privilégios à custa dos cofres públicos. Quem manda, enfim, é quem governa e não procura educar ou libertar o povo a fim de que ele possa exercer de verdade as funções de soberano. Não. Desrespeitado e pisoteado em meus direitos não me sinto soberano. Pelo contrário, diante de tanto cinismo, às vezes chego a pensar que o parágrafo foi enxertado com o oculto propósito de eleger o povo como o idiota e imortal avalista de todos os erros praticados no Brasil. Depois do que foi dito, não me resta outra saída a não ser sugerir uma nova redação para o famoso parágrafo. Tenho uma idéia realista: todo dinheiro público emana do povo, mas o poder é exercido por aqueles que conseguem manejar as chaves dos cofres. É bem verdade que o impacto dessa decisão implodiria de vez os podres edifícios da república. Melhor assim do que continuar pagando moralmente pelos erros dos outros. (*) É contador.