Opinião
Minha descoberta infantil
| Lysette Lyra * Minha mãe era muito religiosa. Afilhada de Nossa Senhora da Conceição, ensinou-nos a amar a santa mãe de Deus com todo fervor. Até meu pai, que não era, assim, tão convicto, respeitava-a e, quando tinha algum problema que o afligia, pedia à esposa para rogar, à madrinha, ajuda para sua causa. Nesse esquema, as datas cristãs, em nossa casa, eram sempre festejadas com todas as honras. O Natal, então, nunca passou em branco. Havia tudo que é de direito: árvore adornada, presentes para a família, para os amigos, para os empregados, ceia farta com direito ao peru assado de pernas para cima, todo enfeitado e recheado com uma gostosa farofa que só mamãe sabia fazer. A festa se estendia até o dia 31 de dezembro, data em que era comemorado o aniversário de seu feliz matrimônio. Nesse dia, então, nosso lar se enchia de gente e de muita alegria. Quando éramos pequenas, minha irmã e eu, mamãe nos fazia acreditar na fantasiosa existência do Papai Noel. Era o bom velhinho que nos daria presentes, de acordo com nosso comportamento durante o ano. Caprichávamos por merecê-los. Minha irmã, mais do que eu. Ela era acomodada, estudiosa, não fazia nada para desagradar nossos pais. Quanto a mim, de vez em quando, extrapolava na conduta. Sempre fui muito independente e travessa. Curiosa em conhecer os segredos ocultos à minha pouca idade. D. Zenaide, minha mãe, boa, mas rigorosa, não deixava passar nada: e eu estava sempre de castigo. Mas no Natal havia uma certa condescendência e eu era anistiada. Mamãe escondia os presentes e colocava-os em nossos sapatos para que os encontrássemos no dia seguinte. Ela vibrava em ver nossa satisfação ao nos depararmos com o que havíamos pedido, previamente, por carta, ao bom velhinho. Desta forma procurou esconder, por alguns anos, esse segredo. Alguém soprou nos meus ouvidos, que Papai Noel era uma farsa e que as dádivas partiam de nossos genitores. Tinha seis anos de idade, quando me fizeram essa revelação. Fiquei incucada e passei a revistar todos os lugares possíveis, onde meus pais pudessem ter ocultado os presentes natalinos. Até que os encontrei em cima de um guarda-roupa. Eufórica com a descoberta, sentindo-me uma heroína, fui correndo contar aos meus pais que os havia achado. Quando fiquei adulta me arrependi de ter estragado, com minha curiosidade, aquele prazer inocente que lhes fazia tão contentes! Hoje os presentes são postos na árvore. Às vezes, alguém se veste de Papai Noel para entregá-los. Criou-se, também, o amigo secreto, mais prático. (*) É escritora.