Opinião
Carta ao Papai Noel
| Mirian Gusmão Canuto * Nos meus tempos, já bem distantes de criança, ficávamos várias semanas que antecediam o Natal, rascunhando e aperfeiçoando uma cartinha ao querido Papai Noel. Fazíamos e refazíamos listas de presentes. Os brinquedos sempre lideravam os pedidos. Na ingenuidade marcante das gerações infantis de décadas atrás, cada vez menos duradoura nos dias atuais, esperávamos ansiosos pela chegada do Natal. Recordo-me que o sono da noite de 24 de dezembro era intranqüilo, dominado pela feliz ansiedade da chegada do ?Bom Velhinho?. Colocávamos os sapatos juntos ao pé da cama. A porta do quarto ficava entreaberta. Quantos preparativos! Meus irmãos ou amiguinhos relatavam ouvir algum barulho noturno. Outros, de tão puros e crentes diziam tê-lo visto, e cada um que lhe ressaltasse um detalhe mais interessante. Hoje, com o contexto imposto pelo tempo e pela sociedade, escreveríamos assim: Caro Papai Noel, Devolva às nossas crianças, a ingenuidade de outrora. Dai-lhes pais mais disponíveis para poderem saborear a felicidade do convívio familiar. Conceda uma atenção especial a dois segmentos: O infantil mais carente, excluído da sociedade. Substitua-lhe a amargura pela esperança. A esperança de ser inserido, não somente no Bolsa Família, mas sobretudo, ter acesso à educação e à saúde. Protegei, Papai Noel, nossas crianças das balas perdidas! Da inclusão às drogas! Da marginalidade! O outro segmento, querido pai, são as crianças da geração de 50, 60 e 70 que hoje governam o nosso País. Não basta terem adotado sua barba ou serem ?garotinhos?! Devolva-lhes, pelo menos, 10% das características infantis: sinceridade, espontaneidade e credibilidade. Crianças são honestas! Não esqueça de lembrá-los que a geração infantil brasileira de todos os tempos merece respeito. Pelo menos respeito! Mas será que Papai Noel poderia visitar os lares brasileiros do século 21? Grades por todos os lados! Cercas elétricas! E o saco dos presentes chegaria ao seu destino? Ou seria roubado e desviado na primeira esquina? Haveria ainda um grande risco: da nossa criançada perder seu ?Bom Velhinho? num seqüestro, num assalto à mão armada ou atingido por uma bala perdida. Nos dias atuais, no Brasil, locomover-se tornou-se um ato de coragem. Feliz Natal às crianças de todas as épocas! Coragem e muita paz! (*) É médica e empresária de Turismo.