loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
quarta-feira, 05/08/2026 | Ano | Nº 6282
Maceió, AL
24° Tempo
Logo Gazeta de Alagoas Logo Gazeta de Alagoas
Home > Opinião

Opinião

O �ltimo Natal

Ouvir
Compartilhar

| Marcos Davi de Melo * Fazia muito tempo que não passávamos o Natal juntos. Desde o tempo de crianças, donde as nossas lembranças são sempre as melhores, seja deste período natalino ou de qualquer outro. De repente o primo Homero me telefonou de Recife, onde morava também há longo tempo, para me dizer que estava vindo passar o Natal conosco em Maceió. A novidade não parava aí. Vinha também com a nova mulher, desfeito um casamento de mais de trinta anos, guarnecido com filhos e um netinho. O primo desde criança sempre foi um lutador contra as adversidades. Hemofílico, viveu época em que cair um dente de leite era um sufoco. Chegou a fazer transfusões de sangue em decorrência de dramáticas hemorragias por extração dentária. Outro primo, o Itinho, lhe doou sangue mais de uma vez. Pescador fanático, perdemos a conta das vezes em que se arranhou nas pescarias das pedras e precisou socorro médico imediato. Um simples racha de futebol, vez por outra se transformava em uma tragédia. Um trancão, uma queda e lá ia o primo sangrando para a emergência. Mesmo assim se formou em geologia, depois em física médica, quando foi o primeiro físico especializado em uso de radiações ionizantes em radioterapia no Nordeste; dava assistência aos hospitais de Salvador a Manaus, onde sempre matava a secura por pescaria. Encontrávamos-nos sempre nos congressos em todo o País. Era um vencedor, estava sempre alegre e otimista, apesar das grandes limitações físicas, que com os avanços da Medicina foram ficando cada vez menores. Na noite de Natal, no culto doméstico que sempre fazemos em casa, o primo vendendo saúde estava lá com a nova mulher. Uma jovem bonita, muitos anos mais nova que ele. Era como se fôssemos novamente crianças, reunidas em torno de nossos pais e tios; com uma diferença: apenas meu pai aos 88 anos, o único sobrevivente dos antigos, estava presente. Homero estava muito feliz com a nova mulher, mas sentia insuportável saudade dos filhos e do seu único neto, naquela noite, afastados em Recife. Confessou-me: nunca fora tão feliz na vida, mas ao mesmo tempo sentia imensa falta dos que ficaram em Pernambuco; ria e chorava ao mesmo tempo. Mas estava vibrantemente empolgado com a nova companheira e com o futuro. Poucos meses depois, fui chamado ás pressas a Recife. Homero, acometido por brutal acidente vascular cerebral, teve complicações e veio a falecer com menos de 60 anos. O seu último Natal foi como um retorno ao passado, um inconsciente adeus às suas origens. Segundo Ovídio: Tempus edax rerus. (*) É médico e professor da Uncisal.

Relacionadas