Opinião
Pel� e Pilatos
| Ronald Mendonça * Há 49 anos, em campos suecos, o mundo se encantava com as jogadas geniais daquele que viria a ser o ?rei? do futebol. A consagração de Pelé venceria os tempos a ponto de cinco décadas depois ainda se reverenciar o seu nome. Se Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, atingiu a quase perfeição nos gramados, no papel de Edson teve seus momentos de perna-de-pau. Num desses, talvez o pior de sua existência, renegou uma paternidade indiscutível. Para sua desgraça, a filha, uma batalhadora santista viria a falecer de um câncer generalizado, agarrada na crença de que orações conseguem fazer esmaecer agressividade de uma doença maligna. Pelé, como tantos outros de sua geração, conviveu com os militares, sendo, por méritos pessoais, adulado pelo sistema, até que um dia suas pernas cansadas deram adeus às chuteiras. Numa decisão polêmica, despediu-se ainda glorioso da seleção brasileira ao recusar compor o fracassado selecionado de 1974, optando por disponibilizar suas habilidades ao país do Tio Sam. Aposentado, o mineiro de Três Corações continuou a ter merecido espaço na mídia. Sem sombra de dúvidas é o brasileiro mais conhecido no exterior. Não obstante, por conta de compulsiva incontinência oral, seus palpites sobre política (e até sobre futebol) muitas vezes são desnudados do brilho com que costumava levantar as platéias. Nesse aspecto, vale relembrar a pérola expelida durante a ditadura, ao assegurar que os brasileiros não estavam preparados para escolher seus representantes. É claro que houve revides venenosos. Aborrecido com certas falas do ?rei?, Zico seria taxativo: ?A boca de Pelé é como bunda de criancinha: pode sair qualquer coisa?. Já para Romário, ?Pelé calado é um poeta?. A verdade é que Pelé fez escola. Esta semana sua influência marcou presença no discurso do Procurador Geral do Estado. De fato, quem leu os jornais talvez tenha se espantado com a surpreendente declaração de que a responsabilidade da roubalheira da Assembléia Legislativa alagoana, em última análise, caberia à sociedade, uma vez que os ocupantes são conduzidos ao cargo por força dos eleitores. Pilatos não se sairia melhor. Nunca se imaginou que o poder de fogo de um Ministério Público ou de um Tribunal de Contas fosse tão insignificante. Sim, porque agora ficou claro que não cabe a esses órgãos nenhuma efetiva função fiscalizadora. Estão explicados a razão e o porquê da impunidade aos assaltantes do erário. A culpa é do povão. (*) É médico e professor da Ufal.