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Opinião

Um c�modo inc�modo

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| Pedro Cabral * Vilas com nomes de santo: Antonio, Amaro, Francisco, José, predominam no lugar. Escondidas do sol. Encolhidas demais. Ao lado da casa do dono, corre um corredor: a rua do lugar. Não mais do que um metro é a sua largura. Não mais do que um. Corredor dos sonhos. Corredor das amarguras. Rua-dó. Rua-lar. Ao fundo, um banheiro. Uma fila nem sempre divertida de vivos companheiros. Moradias de um só cômodo: sala-visita-quarto-cozinha-jantar. De manhã é sala. Meio-dia é copa. De tarde lota. A noite é fria. Madrugada sonha. Há sorrisos e lamentos. Confraria e queixumes. Sexo lateja poroso. Um rádio toca alto. Sonho doce de TV. Um menino nu se arrasta pelo solo. Um homem sem camisa ouve, acuado. Uma mulher se penteia na porta. A cidade ausente é ilusória. Gritos e sussurros se revezam. A vila é assim: um dono, mil inquilinos. Sonhos sem aluguéis prevalecem. Enquanto a sorte não bate, a vila dá identidade e a esperança sobrevive como as marés. Vilas dos santos de diversos nomes que abrigam os sem-nomes continuam a proteger, abrigar corpos e sonhos. Maceió tem mil vilas assim. Esquecidas da gente. Percebidas pelos céus? Certamente percebidas por caça ? votos profissionais. Vilas sem ousadia que desconhecem ou lhes são negadas a cidadania em título. Passar a morar na rua de frente pra cidade é a maior esperança. Nessas vilas latejam os sonhos da casa própria. Sonhos de um emprego. De uma escola para filhos ?impróprios?. De ser respeitado como vizinho. Povoam tantos sonhos que os corpos se alimentam do vazio. Povoa tanta esperança que as mentes armazenam os desafios. Ninguém consegue conter tanta sobrevivência. Maceió não é Sampa, mas também tem vilas, filas, favelas. Filas malditas, favelas aparentes e vilas escondidas. Tão escondidas do mundo e tão acanhadas aos olhos que os olhos do mundo são capazes de afirmar a sua inexistência. A vila é símbolo. É arquitetura. Contudo, o governo bem poderia aproveitar essa idéia e, ao invés de construir conjuntos habitacionais caríssimos e distantes do trabalho, bem poderia adquirir lotes existentes nos interstícios da cidade ? há vários -, já dotados de infra-estrutura e projetar vilas decentes. Um lote como rua e outro como conjunto de cinco ou seis casas duplex. 12 casas por dupla de lote. Certamente, um sonho seria realizado. Esses seres humanos poderiam dizer: ?Eu sou vizinho da sociedade?. (*) É arquiteto e professor de Arquitetura e Urbanismo da Ufal.

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