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Cart�es postais: paisagens da mem�ria

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| Cármen Lúcia Dantas * Uma viagem os postais! Pelas suas imagens percorremos mundos distantes, como andarilhos sem chão. Conhecemos hábitos de exóticas culturas, modos de vida, cenários, a flora e a fauna de terras longínquas, feitos históricos, paisagens. Desvendam mistérios do desconhecido esses cartõezinhos viajantes que alargam o nosso mundo correndo mundos, encurtando distâncias. Quantas histórias de amor foram por eles alimentadas. Quantos códigos afetivos foram criados para enigmar a indiscrição da mensagem aberta. São excelentes fontes complementares do estudo da História, desde o início de sua circulação, no século 19, até o advento da mensagem eletrônica, quando seu uso passou a ser bem mais restrito. No Nordeste, Gilberto Freyre foi o primeiro pesquisador a entender o valor dos postais na elucidação de ambientes e de posturas do passado, de forma espontânea e atraente. No livro Alhos e bugalhos já reconhece a contribuição do cartão-postal como fonte de referência para estudos na área das Ciências Sociais. O sociólogo pernambucano tinha razão, pois através dessa comunicação postal o pesquisador tem em mãos uma radiografia de época, com temas variados que se multiplicavam e, díspares, vão do amor à guerra. Entre um percurso e outro, as emoções de toda natureza: saudades atiçadas, sorrisos, lágrimas, amenidades. Rever postais é mesmo uma viagem: no tempo, no espaço físico e nos entremeios das emoções escritas. Através deles dá-se uma reviravolta e o tempo, na sua efemeridade, se eterniza. Parece um paradoxo, mas quando voltamos ao passado, sempre encontramos um viés que nos indica uma direção para seguir a diante, como se abríssemos uma porta de dentro para fora. Os postais mais antigos promovem esse retorno. Eles nos ajudam a abrir a tramela das lembranças e estabelecer uma ponte com o passado nessa enriquecedora relação atemporal. Despretensiosos uns, requintados outros, mas todos documentos de época. Por eles avançamos em direção ao entendimento de um percurso, ao encontro da unidade e da intimidade na contemplação e na teia que a memória se encarrega de tecer. Quer com o conteúdo da mensagem transmitida, quer com o silêncio da imagem congelada. São ambiláteros na importância. Tanto valem pelo verso como pelo reverso. O tempo está neles fixado em ambas as faces, mostrando, na mensagem e na estampa, rastros que ajudam a encontrar as várias pecinhas do tabuleiro da memória e das relações interpessoais. No verso a mensagem, com todas as nuanças características de sua época, a partir da letra de manuscrito cuidadoso e linguajar esmerado. A tinta preta, seca no mata-borrão, é reveladora dos tempos em que a pena corria sem pressa no branco do papel. Ao mínimo descuido, um pingo de tinta poderia botar tudo a perder. Quando isso acontecia e não se tinha outro cartão à mão, o jeito era colocar no correio o postal, mesmo manchado, apesar do constrangimento. Por isso, a concentração deveria ser total. Afinal, não se declinava o verbo deletar no tempo dos nossos avós... (*) É museóloga.

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