Opinião
Feliz ano-novo, agora e sempre
| Luciano Siqueira * Nos cartões que nos chegam pelos correios, nas mensagens via e-mail e torpedos no celular: boas festas e feliz ano-novo! Com ligeiras variações, a saudação se repete aos milhares, confirmando relações de apreço e amizade ou como um gesto formal de alguns que, ocupando postos de relevo na área pública ou privada, sentem-se no dever de praticá-lo. De toda sorte, desejamos, sim, uns aos outros, um ano-novo benfazejo, com maior ou menor convicção do que estamos dizendo. E o grau de convicção se expressa com certa nitidez quando o cumprimento é feito pessoalmente. ? Torço para que você tenha um 2008 de muita alegria e paz, amigo! ? Pra você também. ? Oxente, você responde assim desanimado... Tá faltando firmeza. ? Claro que desejo um bom 2008 pra você. O problema é meu, não tenho a menor certeza do que vou enfrentar pela frente. ? Como assim, cadê seus planos? Você sempre foi um cara de fazer planos pessoais, mesmo no tempo difícil da militância sob ditadura militar, lembra? ? Verdade: sempre fui otimista. Mas hoje, amigo velho, que pode esperar do ano-novo um sujeito como eu afundado em dúvidas, desenganos e dívidas? ? Puxa, rapaz, não fale assim. Todo mundo tem problemas, mas nem por isso se deixa abater na passagem de ano. ? Pois é, se a gente se encontrar no réveillon você vai ver o que é animação. Depois da segunda dose, ninguém me segura. Prometo que serei o mais animado da festa. Mas, no dia seguinte... dia seguinte é pauleira, velho! Despedimo-nos quando foram chamados os passageiros do vôo para o Rio de Janeiro ? conversávamos no salão de embarque do aeroporto, e seguiríamos em vôos diferentes ? e nosso diálogo foi interrompido por um quase protocolar boa viagem. Mas nas duas horas e tanto de vôo, as palavras do amigo não saíam da mente. Quantas pessoas, como o amigo infeliz, estarão nas celebrações do réveillon exibindo uma alegria falsa, artificial, dissonante do seu real estado de espírito? Pouco importa, diria outro amigo, mestre conceituado de festas e farras, para quem as comemorações, o uísque e os abraços efusivos servem mesmo para isso: para disfarçar, por um instante que seja, os males que nos afligem e exaltar a felicidade geral, irrestrita e passageira. Pode ser. Mas, desse que jamais perdeu a esperança, receba um sonoro feliz ano-novo, agora e sempre. (*) É vice-prefeito da cidade do Recife.