Opinião
O frango epistemol�gico
| Jenner Bastos * Em quaisquer que sejam as disciplinas em que atuemos, devemos ir aos fundamentos das mesmas. Trata-se de um dever de ofício. Também é um imperativo ético. Não seria legítimo alguém exercer uma atividade sem conhecer os principais fundamentos em cima dos quais essa atividade deve se constituir enquanto tal. Se isso é verdadeiro para as disciplinas, o é ainda com maior razão no caso do exercício da interdisciplinaridade. A partir do diálogo e do entrelaçamento entre duas ou mais disciplinas, poderão emergir novos e singulares fundamentos. Tais fundamentos somente emergirão se as pontes entre as tradições disciplinares forem firmemente estabelecidas. No entanto, mesmo a partir de bases disciplinares sólidas aparecerão inevitavelmente contradições. Isso porque nos acercamos da realidade por meio de vários quadros teóricos, alguns deles não inteiramente de acordo entre si. Até mesmo numa disciplina isolada há vários quadros teóricos. Com a confluência de várias disciplinas, essas dificuldades são ainda maiores. Mas se os nossos fundamentos devem ser sólidos, não devemos elevá-los ao nível de convicção dogmática. Se o fizermos, então os fundamentos transformar-se-ão em fundamentalismo e consequentemente em pura ideologia. Esvaziar-se-ia também a possibilidade de um diálogo interdisciplinar fértil. Por isso, embora devamos respeitar as nossas boas tradições, haveremos de superar nossos arraigados corporativismos profissionais e sermos menos ciosos de nossas próprias disciplinas. Uma anedota que circulou na internet ilustra bem o argumento. O problema consiste em responder à pergunta: ?Por que o frango atravessou a estrada??. Na anedota, as respostas dadas são todas elas inseridas em algum quadro teórico ou, se preferirmos, em algum paradigma. Se o teórico for marxista dirá que a travessia do frango foi motivada por lutas de classe, se for neoliberal dirá que foi por razões de mercado, se for feminista dirá que foi em virtude de escapar da opressão machista, e assim por diante. A lição que tiramos disso é a seguinte: como a realidade é complexa e o nosso pensamento também, todos os aportes teóricos são bem-vindos desde que saibamos tecê-los com critérios. Nada disso é fácil, mas o desafio é belo. Aliás, complexo significa tecer conjuntamente. (*) É doutor em física teórica e professor da Ufal.