Opinião
Nosferatu
| Jorge Briseno * Outro dia estava recordando o que me deixava atônito e à beira da vertigem quando usava calças curtas. De antemão, não vá pensar o amigo leitor que fui atacado por reminiscências nostálgicas e perdidas no tempo ou ? pior ? que estou convidando-o para um passeio retrospectivo. Não, definitivamente não é comum que me detenha muito tempo nessas lembranças. Mas isto não importa. Como estava falando, uma das coisas que me impressionavam era a idade que os patriarcas bíblicos atingiam. Lembro que na casa dos meus pais existia uma bíblia ? linda, de capa preta bem grossa e com detalhes dourados. Foi nela que descobri, absorto, o estonteante número de anos alcançado pelos personagens bíblicos. Vejam vocês se não estou coberto de razão: o patriarca Isaac completou ? fácil, fácil ?, 137 anos. Noé ? sim, o da arca ?, sobreviveu à enchente e viveu 950 anos. O que mais me impressionava era o longevo Matusalém que viveu inacreditáveis 969 anos. O amigo leitor há de argumentar que o tempo, na época do Gênesis, era registrado de forma diferente da de hoje. Claro, também concordo e recordo a todos o que outro dia uma amiga arquiteta me falou: ?A Terra inclinou-se sobre seu próprio eixo e o dia não tem mais vinte e quatro horas e sim, apenas dezesseis horas?. Está sobejamente explicado, portanto, por que estamos vivendo menos do que os patriarcas bíblicos. Por volta dos 15 anos caiu em minhas mãos o livro Drácula ? de Bram Stoker ?, imortalizado nas telas como Nosferatu. Lembro que fiquei condoído com a crudelíssima situação do Nosferatu. O pobre diabo é condenado a viver eternamente, despertando apenas à noite, cheirando a enxofre como Bush ? segundo o presidente Chávez ? tendo, como único prazer, ferrar seus caninos em esguios pescoços de donzelas. Agora explico por que cansei o amigo leitor com essas reflexões. Uma recente pesquisa da Fundação Getúlio Vargas, sobre a situação do esgotamento sanitário em nosso País, afirma que ? observem vocês a tragédia dantesca ?, a permanecer o atual estado de coisas, a universalização do acesso a sistemas completos de esgotamento sanitário, inclusive tratamento, só ocorrerá daqui a 114 anos. Isso mesmo, você ouviu bem, apenas no longínquo ano de 2122 todos os brasileiros terão suas residências interligadas às redes de saneamento. Para testemunharmos esse auspicioso fato, caro leitor, só se nos morfosearmos em Nosferatu, ou, se tivermos sorte, nos boníssimos patriarcas bíblicos. (*) É engenheiro e diretor de operação da Casal.