Opinião
Um 2008 rememorativo
| Marcos Davi Melo * Costa e Silva, após indicar-se para suceder Castelo Branco, cargo que ocupou de 1967 a 1969, dirigiu-se para Paris, mas chegando lá não saiu do hotel durante os primeiros três dias passados na capital francesa. Limitava-se a jogar biriba com amigos, o que levou d. Yolanda a protestar: ?Artur, nos estamos aqui enfurnados, sem sair e eu ainda não fui ao Louvre?. Costa e Silva respondeu; ?Não faz mal, a culpa é da água que você está bebendo? Algum tempo depois, em 68, 40 anos atrás, Costa e Silva conviveu com um País confrontado. As ruas pareciam praças de guerra, ocupadas por tropas de choque e estudantes com paus, pedras e bombas; cargas de cavalaria, ocupação das universidades, embates sangrentos, depredações, carros blindados, atentados terroristas e mortes. Surgem líderes estudantis como Vladimir Palmeira, Luiz Travassos e José Dirceu. Na França, configura-se situação semelhante, liderada pelo estudante Daniel Conh-Bendit. No dia 16 de junho, no Rio, intelectuais, artistas e o clero realizam a Passeata dos Cem Mil, com a participação de Chico Buarque, Caetano, Gil e Milton. Em julho, o Comando de Caça aos Comunistas invade o Teatro Ruth Escobar em São Paulo, leva os atores de Roda Viva para a rua, espanca-os e depreda o prédio. Enquanto no Brasil e no mundo os conflitos avançam, como a invasão da Thecoeslováquia pelas tropas da URSS, em setembro, no TUCA, se iniciava a etapa paulista do 3º Festival Internacional da Canção; que teve como maiores destaques É Proibido Proibir de Caetano e Pra Não Dizer Que Não Falei de Flores de Geraldo Vandré. Na fase seguinte, já no Maracanãzinho, a disputa final é entre Vandré que é endeusado pela multidão e a belíssima Sabiá de Tom Jobim e Chico Buarque de Holanda. Vandré perde para Sabiá e como represália, Jobim, o maior compositor brasileiro, é vaiado impiedosamente pela multidão. Para a final internacional, alguns dias depois, Tom apela para Chico voltar da Itália, onde se exilara voluntariamente. Chico chega no domingo, procura Tom, comem feijoada e vão para o Maracanãzinho onde novamente são vencedores. Dali vão direto comemorar na casa de Tom no Leblon, onde estão Ruben Braga, Millor Fernandes e Fernando Sabino. No meio da noite vêm a notícia da morte de Sérgio Porto e a festa acaba. Os adeptos de Vandré acreditavam que podiam enfrentar e vencer a ditadura com as armas afiadas da militância musical. No dia 13 de dezembro Costa e Silva editou o AI-5 e foi o que se sabe. Neste caso a culpa não foi da água do Sena. (*) É médico e professor da Uncisal.