Opinião
Os donos das praias
| Ivo Werneck * Em Maceió as praias têm donos. Já em 1983, um turista vendo um apanhador de cocos subindo em um coqueiro, em plena faixa de areia da praia da Ponta Verde, indagou-lhe qual seria o destino dos cocos, ao que aquele prontamente respondeu: ? São para o dr. Fulano. Replicou, então, o turista: ? Mas porque os cocos são dele? Aonde mora esse doutor? ? Mora do outro lado da avenida, naquele prédio, e esses coqueiros são dele. Esse caso pode parecer único, singular, mas em seu bojo mostra o comportamento social de várias pessoas, com relação ao trato do bem público, que, lamentavelmente, permanece até os dias de hoje. Ambulantes, ou seriam ?estacionantes?, e, corretamente escrevendo-se, estacionários, em improvisados e toscos equipamentos, sem higiene e cuidados, inclusive com a poluição visual, se instalam nas faixas de areia próximas ao calçamento, estabelecendo-se como proprietários fossem da área, ou como chamam, ?pontos comerciais?. Eternamente, ou, quando quiserem vendê-los para outrem. A faixa de areia, também é loteada, onde cada ?estacionante? distribui na área, para aluguel, dezenas de cadeiras e guarda-sóis. Quem leva sua própria cadeira ou guarda-sol para essas áreas, caso ainda encontre espaço, pode ser considerado ?persona non grata?, invasor. Ao utilizarmos a palavra ?eternamente?, de imediato nos vêm à mente, as barracas/restaurantes, e outras instalações ou arranjos, onde seus ?proprietários? se apossaram de parte da costa brasileira. Na terra do ?tudo pode?, estas pessoas, são, em maioria, abastados, até mesmo empresários, com outras atividades. Enquanto comerciantes, legalmente estabelecidos, em imóveis particulares adquiridos às custas de economias de uma vida, ou alugados a valores altíssimos, em bairros de praias, lutam para sobreviver, outros, locupletam-se às custas de espaços públicos, há anos, ou mesmo recentemente, quando um proprietário de uma casa noturna em Jaraguá, onde já ocupa, ostensivamente, o passeio público, estendeu seus negócios a uma barraca na praia da Pajuçara. A última licitação pública para a exploração comercial desses locais, deixou envergonhados os homens e mulheres de bem de Maceió e de toda Alagoas. Interessados na licitação foram surpreendidos pela ausência de postura democrática e civilizada da maioria dos atuais concessionários. (*) É perito criminal e engenheiro eletricista.