Opinião
P�r-do-sol e madrugada do novo
| Dom Fernando Iório * Como o povo de Deus, como Jesus, somos caminheiros. É delicioso caminhar na vida, à maneira de Abraão que tudo abandonou em troca do que lhe prometera Jahvé: ser pai de uma descendência incalculável. É maravilhoso caminhar, como Moisés dirigindo um povo que saíra da escravidão do Egito. É confortável caminhar, quando sabemos para onde vamos, com o endereço certo. Cristo teve muito de comum conosco: foi caminheiro. Em um fim de ano e início de outro, somos convidados a realizar algo de novo, a enfrentar o tempo que não pára, a penetrar a terra de ninguém e singrar por mares ?nunca de antes navegados?, a desvendar florestas, sem trilhas, donde pessoa alguma retornou para nos servir de guia. Necessitamos, então, de coragem, que não é ausência de desespero, senão a capacidade real de seguir em frente, embora pedras e espinhos haja na estrada. Sem a coragem, o amor empalidece, a esperança é conformismo, a fidelidade é dependência. A coragem é necessária para que, cada dia, nós sejamos, qualitativamente, mais: a bolota transforma-se em carvalho, por automatismo, sem compromisso consciente; o filhote transforma-se em leão, pelo instinto, porque, neste caso, natureza e ser se identificam. Entretanto, homem e mulher tornam-se humanos por vontade própria e pelo compromisso com essa ou aquela escolha. Graças a Deus, caminhamos durante minutos e horas dos 365 dias do ano de 2007, fortes e altaneiros. Caminhamos com endereço certo, sempre com os olhos dirigidos para o ponto de chegada. O que semeamos com lágrimas, estamos colhendo com alegria, no dizer do Salmo 125. Se antes parecíamos sonhar, enchem-se, agora, nossos lábios de canções, nosso rosto de sorrisos. Agora, no fim do ano, é que vemos como aquela flor nasceu, como aquela estrela brilhou, como aquele barco partiu e o tempo passou na janela, porque Deus nos guardou, como diz o poeta, para este lugar e hora. Sim ? para a manhã do novo ano que se vislumbra esperançoso. A caminhada é nova: demo-nos as mãos, vamos viver o novo sol de 2008. (*) É bispo emérito de Palmeira dos Índios e membro da Academia Alagoana de Letras.