Opinião
Mestre Zaca
| Jorge Oliveira * Fui um aluno indisciplinado do mestre Zacarias lá pelos idos dos anos 60. Ainda era menino, quando recebi convite do Senador Arnon de Mello para deixar o Diário de Alagoas. Não resisti à proposta de ganhar o dobro na Gazeta de Alagoas, o jornal líder em circulação. Na redação, os cabeças brancas de hoje: Sapucaia, Valmir Calheiros, Zé Elias, Márcio Canuto, Arthur Gondin, Epaminondas, Edson Mauro, Pererinha, Sampaio, Valter Lima, Nunes, Fernando Araújo, Gabriel Mousinho e outros que já se foram. Ao entrar no jornal Gazeta de Alagoas tive a mesma sensação de frio na espinha de quando cheguei anos depois na redação do Correio da Manhã e do Jornal do Brasil, no Rio, depois de um sábio e profético conselho do mestre Zaca: ?Vai embora negão, aqui não tem mais campo pra você?. Alagoas ainda vivia o seu apogeu jornalístico. Circulavam no Estado, além da Gazeta, o Correio de Maceió, o Semeador, o Jornal de Alagoas, o Jornal de Hoje, o Diário de Alagoas, o Repórter Semanal, a Gazeta da Tarde. Os profissionais eram disputados a tapa pelos jornais. Rebelde, transpirando adrenalina, tive a felicidade de aprender apanhando de régua com o mestre Zaca. Quem de nós, os cabeças brancas, não lembra daquela régua enorme de plástico, que ele usava para diagramar as páginas do jornal? Com ela, o mestre administrava a zorra da redação, mas só batia em quem gostava. Assim, eu e o Valter Lima tivemos o privilégio de levar ?surras? intermináveis dentro da sala, onde ele desenhava o jornal e fechava a primeira página. Gosto de dizer que aprendi apanhando, mas aprendi. Minha relação com o mestre Zaca foi muito além da amizade. Eu o tinha como um pai, um conselheiro, um companheiro de bons e maus momentos. Deixei Alagoas em 1970, mas sempre que podia ia ao seu encontro em Maceió. No Rio e em Brasília sempre recebi com afago o mestre do sorriso sincero e do abraço forte e solidário. Acompanhei boa parte da sua trajetória profissional e pude constatar algumas vezes como o mestre estava sendo incompreendido, o que lhe deixava amargurado, mas sem ressentimento. Zacarias Santana tinha um talento nato. Conhecia profundamente o ofício de fazer e administrar jornal. Era um artista da estética. Sabia como poucos espelhar um jornal ? na época a diagramação era matemática ? de forma a chamar a atenção do leitor paras as notícias da primeira página. Pelas suas mãos não só passaram os mais talentosos profissionais gráficos, como os melhores jornalistas de Alagoas, muitos aperfeiçoados pelo som quase surdo da batida da régua. Mas a grande virtude do mestre estava no caráter, na amizade e na gratidão. Jamais, em momento algum, traiu um amigo ou se negou a algum favor. Como pai, marido e avô foi um exemplo. Que Deus o receba no céu com a régua de fazer talentos. (*) É jornalista.