Opinião
Espectro retornado - Editorial
Volvemos ao passado? As notícias sobre o aumento de casos da Febre Amarela deveriam despertar lembranças apavorantes em nossas autoridades, de forma que a esta sombra fosse dirigida as luzes de ações imediatas e eficazes, combatendo o problema à altura. Nossa história da saúde pública é marcada pelas chagas desta moléstia, descrita num dos três primeiros livros sobre medicina no Brasil. Escrito por João Ferreira da Rosa, ?Tratado Único da Constituição Pestilencial de Pernambuco? foi publicado em Lisboa em 1694, retratando a epidemia que assolou nossa região em 1685. Nos albores do século 20 o espectro mortal da febre amarela ainda castigava profundamente nosso País, ao ponto da capital brasileira, a ?pérola do atlântico?, Rio de Janeiro, ser também identificada pelos marinheiros do mundo todo como o ?túmulo dos viajantes?. Essa visão caótica seria mudada radicalmente depois de apenas três anos de trabalho coordenado pelo genial e disciplinado médico sanitarista Oswaldo Cruz. Enfrentando a ignorância simultânea do povão e das elites (inclusive da maior parte da imprensa), o ?czar dos mosquitos?, como era ironicamente caricaturado, venceu a guerra daquele tempo contra o agente transmissor da febre amarela. De 1902 a 1905 Oswaldo Cruz enfrentou e venceu, além da epidemia e seu agente transmissor, o preconceito científico e calou a então equivocada voz rouca das ruas. E quem era esse malfadado transmissor? O mosquito Culex fasciatus, também conhecido como Aedes aegypti. Mais de um século depois da epopéia de Oswaldo Cruz, a febre amarela volta a exibir sua carantonha horrenda, ceifando vidas no Centro-Oeste e forçando o governo federal a se pronunciar sobre o perigo. Mas, como há um século, há como vencer o mal ? para isso, tal qual nos idos de 1902, será necessário firmeza e decisão política.