Opinião
O presidente da febre amarela
| Ronald Mendonça * A finitude humana, a convicção de que tudo isso um dia vai ser pó, tem sido um desafio a empurrar a humanidade em busca da imortalidade. No íntimo, ninguém quer passar batido sem deixar algo para a posteridade. Faz-se um filho, escreve-se um livro, planta-se uma árvore, entra-se numa academia. Há os que serão lembrados pelos bens materiais que acumulou. Tempos houve em que se correu para descobrir a mítica ?pedra filosofal?, capaz de transformar em metal precioso a matéria mais vagabunda. Ainda num passado não muito distante, buscou-se a perenidade através do ?elixir da longa vida?, beberagem que garantiria ao usuário anos de lambujem. De alguma forma, a ciência tem batalhado para encontrar substitutos do ?elixir?, que, se não garantem a eternidade, pelo menos prolongam nossa estada nesse ?vale de lágrimas?. Quanto à ?pedra filosofal?, o leitor tem consciência de que políticos e administradores espertos conseguem a mágica de transformar em ouro e euros tudo que lhes chega às mãos. Quando se fala em modelo de administrador público de verdade, logo surge a figura do estadista ateniense Péricles, cujo extraordinário desempenho fez do seu nome a denominação do século em que viveu. Arnon de Mello, nas Alagoas, não bastasse vitoriosa trajetória como empresário das comunicações, como governador, pavimentando estradas e abrindo escolas, foi um realizador ousado, além do seu tempo. Juscelino e Getúlio Vargas são personagens inolvidáveis. Vargas, ?pai dos pobres? e ?mãe dos ricos?, apesar das ambigüidades, propiciou condições técnicas para a fase desenvolvimentista de Kubitschek, que reverbera até os dias atuais. Com FHC, paraíso e inferno nunca foram tão próximos. O Plano Real, ainda hoje núcleo da estabilidade econômica, não foi suficiente para fazer esquecer dos escândalos das privatizações, do ?apagão elétrico?, da dengue, das peraltices de Eduardo Jorge, da compra de votos para a reeleição... Lula elegeu-se explorando o ?apagão elétrico? e apelidando o concorrente Serra de ?ministro da dengue?. Sai-se razoavelmente enquanto segue as linhas do antecessor. Líder de um grupo disposto a comer mel a todo custo, melou-se com o mensalão, com o apagão aéreo, com a picaretagem de ministros e aliados. A dengue continua forte e (ironia!) há o risco de novo apagão elétrico. Contudo, se não abrir os olhos, a história o consagrará como o ?presidente da febre amarela?. (*) É médico e professor da Ufal.