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O sapo m�ope

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| Jorge Briseno * Eu estava entorpecido pelo sono, diante da luminosidade da televisão. Um sujeito, meio gorducho, estava sendo entrevistado. De início o que fixei e o que me chamou a atenção, foram seus óculos ? pequenos, redondinhos, de lentes grossas, parecendo vindas do fundo de uma garrafa verde. Por trás daquelas pesadas lentes seus olhos pareciam dois enormes pontos pretos flutuando. Não sei por que, porém, de imediato, ao me deter mais em seu rosto me veio à mente a figura de um sapo. Sim, isso mesmo, de um sapo. Um sapo míope. Porém isto não vem a ser importante. O que é transcendente, caro leitor, é o que ele dizia. E o que ele falava, com grave preocupação, percorreu o meu cérebro como uma descarga elétrica. Fiquei assombrado com o solene desassossego do cara de batráquio. Ao que parecia, o sujeito trabalha na área de seguros, pois ele passou todo o tempo da entrevista lamentando os gravíssimos prejuízos do seu negócio com os efeitos do aquecimento global. O sapo, com o rosto transido de aflição, lamuriava-se alegando que, só no ano de 2006, o pagamento de seguros dobrou e chegou a atingir 30 bilhões de dólares. E dizia, cheio de angústia, lembro-me bem: ?É um horror, não estamos suportando mais?. Perceba, amigo leitor, até onde pode chegar a insensatez humana e o paroxismo das regras do ?mercado? ? essa apavorante selva em que combatem os homens em defesa de seus interesses e não do bem-estar do mundo. O batráquio, durante toda a entrevista, não demonstrou a mínima dor, não soltou uma palavra de conforto, de solidariedade, de compaixão, de piedade, de condolência, de ternura, de... Como dizer... Seja lá do que for, para com as vítimas dos efeitos do aquecimento global. Não sei se me faço entender. O sapo não demonstrou um gesto de preocupação ? por menor que parecesse ?, para com as pessoas que tiveram suas vidas destroçadas com as enchentes ou com a elevação do nível do mar. O sapo míope, já que não se condoía da situação dos humanos, deveria, ao menos, externar sua solidariedade para com os outros seres que, como ele, integram o mundo selvagem. O urso polar, por exemplo. Sim ? e o amigo leitor há de concordar comigo ?, é de dar um aperto no coração ver as fotografias dos ursinhos ? branquinhos, fofinhos; porém, não cheguem perto, pois, depois do homem, naturalmente, são os maiores predadores do planeta, com suas patinhas juntinhas, equilibrando-se naquelas pequenas placas de gelo, cada vez menores, e prestes a desaparecer no mar profundo e dos olhos míopes dos homens. (*) É diretor de operação da Casal.

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