Opinião
Um livro centen�rio e as elei��es municipais
| Luciano siqueira * Seria muito útil a todos, os que de modo direto ou indireto tomam parte nas gestões preparatórias do pleito de outubro, a leitura do 18 Brumário de Luis Bonaparte, a primeira análise de uma situação política determinada (a da França) escrita à luz do materialismo histórico, justamente pelo seu fundador teórico, Karl Marx, entre dezembro de 1851 a março de 1852. Passados 156 anos, a obra continua atual e útil para a correta compreensão de que o processo político não se dá tão somente a base da vontade dos atores envolvidos. Há variáveis outras, de ordem objetiva (em certa medida determinantes do comportamento subjetivo deste ou daquele líder e mesmo dos partidos políticos) relacionadas com os interesses de classe ou de segmentos de classe em presença. Por isso a política não é um simples jogo de damas; é de xadrez, mais complexo. Geralmente não basta a uma determinada corrente política ter força acumulada, é preciso que tenha também juízo para exercer essa força ? e exercê-la pelo convencimento, pela conquista de adesões conscientes; para que adiante, uma vez instalada a luta aberta, possa reunir descortino, vontade e emoção, ingredientes indispensáveis à conquista da vitória. Por aí se entendem os muitos exemplos em que uma corrente menos robusta logra êxito na aglutinação de aliados partidários e sociais o suficiente para virar o jogo. Daí se dizer, após o desenlace da peleja, que o resultado final foi surpreendente. É que o inesperado brota dessa coisa fascinante que conjuga a um só tempo ciência e arte, que é a tática política. O comentário é oportuno, agora que se iniciam praticamente em todo o País conversações entre lideranças e partidos tendo em vista a batalha eleitoral que se avizinha. Vale particularmente para os partidos à esquerda, chamados a intervir no cenário mediante postura ampla e flexível, ousada e hábil. A estes partidos ? e de resto a todas as forças que tenham um mínimo de maturidade ? não se dispensa, em cada município, a análise concreta da correlação de forças atual e de fatores que poderão alterá-la adiante; a fixação de objetivos claros e viáveis; e a definição de um roteiro político e eleitoral realista. Mera digressão teórica? Nada disso. Basta olhar em torno e examinar os acontecimentos para perceber que o dito acima casa com a realidade em movimento. (*) É vice-prefeito da cidade do Recife.