Opinião
As crises c�clicas do capitalismo
| Ronald Mendonça * Depois de alguns anos de aparente prosperidade, o mundo globalizado esforça-se para esconjurar o fantasma de uma recessão, que no fundo não faz bem a ninguém, a não ser aos catastrofistas de sempre. Com efeito, sem apresentar alternativas consistentes ao modelo econômico em voga, há uma corrente de pensadores, curiosos e palpiteiros que vive à cata de sinais de falência do capitalismo. São viúvas dos métodos progressistas de Stalin, Hoxha e Mão Tse Tung. O fato é que, certamente sob a influência dos fabulosos gastos com a invasão do Iraque, o gigante do norte parece ter sentido no bolso os delírios bélicos do seu presidente. Para completar o infortúnio, ouço dizer que a ?bolha? do setor imobiliário de lá estourou, levando à loucura investidores e bancos. A vida da burguesia tem suas agruras. Sob esse tema, o escritor Scott Fitzgerald registrou com competência e arte de romancista em O grande Gatsby e Suave é a noite o modus vivendi glamouroso de boa parte da sociedade americana e européia nos anos 20 do século passado. Paradoxalmente, nesse período, outra parte do planeta debatia-se em conflagrações diante do dilema entre passar fome e/ou abrir mão da liberdade. As farras dos anos 20 tiveram um fim trágico com a quebra da Bolsa de Nova York, o célebre crash de 1929, que teria levado ao suicídio centenas de pessoas. A realidade é que as dificuldades financeiras por que passam hoje os Estados Unidos preocupam o resto do mundo. Mesmo entre os mais radicais, há um consenso de que os países não irão bem se os americanos quebrarem. A propósito, ainda jovem comentava com um colega neurocirurgião suposta recessão mundial com o aumento do preço do barril do petróleo. Já com alguns uísques irrigando o seu lobo frontal, meu amigo, ainda mais jovem que eu, depois de me ouvir com certa complacência, olhou nos meus olhos, segurou com firmeza no meu braço e detonou contundente: ?Doutor, aprenda essa lição, que o velho Marx já cantava a bola: o que nós estamos assistindo é mais uma crise cíiclica do capitalismo. Você jamais vai ver essa palhaçada num regime comunista?. Um mês depois, sob o efeito da derrubada do Muro de Berlim, o império comunista ruía. Outrora do time do sindicalismo mais xiita, meu colega, hoje tão encanecido quanto eu, antes do uísque para celebrar nosso encontro, tem de agüentar a provocadora pergunta: ?E as crises cíclicas do capitalismo, doutor?? (*) É médico e professor da Ufal.