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Vis�es sobre o populismo latino-americano

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| Marcelo Fernandes * A América Latina alcançou importantes mudanças nos últimos anos. Uma série de líderes populares subiu ao poder através do sufrágio universal provocando uma guinada nas políticas neoliberais que prevaleceram nos anos 1990. Esse movimento é encarado por grande parte dos colunistas que escrevem sobre política e economia sob a denominação de populismo. A palavra não é inocente: o populismo é usado pelos reacionários com forte carga negativa para desqualificar qualquer governo que utilize de políticas que não estão entre àquelas recomendadas pelos organismos internacionais Ex-presidente do Fed, Alan Greenspan, é um daqueles personagens quase míticos. Alguns dizem que foi um dos homens mais poderosos do mundo enquanto esteve na presidência do Fed. No seu livro autobiográfico, A Era da Turbulência, Greenspan dedica um capítulo ao tema populismo econômico, tendo como alvo a América Latina. Para ele, o populismo econômico imagina um mundo simples, no qual o desemprego pode ser resolvido com a boa vontade do governante em contratar os desempregados. Essa visão pobre do funcionamento da economia seria responsável pelas diversas crises que atingiram a América Latina durante as décadas de 1970, 1980 e 1990. Greenspan nos conta que ficou desanimado ?ante a constatação de que, não obstante os inquestionáveis maus resultados econômicos das políticas populistas praticadas por quase todos os governos da América Latina, numa época ou noutra, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, tais conseqüências não parecem atenuar o impulso de recorrer ao populismo econômico.? A afirmação é surpreendente. Greenspan quer fazer crer que não sabe que foi precisamente por volta de 1990 o período em que a América Latina realizou amplas reformas pró-mercado, muito elogiadas pelo FMI e com o total aval do governo Ianque. Reformas muito distantes daquilo que ele caricaturalmente chama de populismo econômico. Na Argentina, por exemplo, Carlos Menem venceu as eleições presidenciais com um discurso de oposição às reformas ditadas pelo Consenso de Washington, para imediatamente, após sua posse, realizar um movimento radical em direção ao neoliberalismo. Não existia um mísero fiapo de discurso antiamericano no governo argentino, o que, de acordo com Greenspan, é uma especialidade dos populistas. Pelo contrário, a vontade de Menem em agradar os interesses dos Estados Unidos era de tal magnitude que chegou ao ponto de enviar dois navios militares para a primeira guerra do Golfo em 1991, sem qualquer consulta ao Congresso. Por outro lado, num ótimo livro, Chutando a Escada, o economista sul-coreano, Ha-Joon Chang, mostra que se os países ricos tivessem optado pelas políticas que recomendam atualmente aos países em desenvolvimento, não estariam na posição que estão hoje. Em verdade, todos eles, em especial os Estados Unidos, usaram e abusaram das políticas que Greenspan e sua turma chamam de populistas. (*) É economista e doutorando em Economia pela UFF/RJ.

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