Opinião
Metamorfoses que matam
| Sérgio Costa * Houve um tempo em que os homens de quepe ? não sabemos se por pressões externas ou mera insensatez ? calaram a nossa voz e interromperam os nossos sonhos. Temendo sua ira, alguns brasileiros fugiram às pressas rumo à clandestinidade. Os que resolveram enfrentar a força descomunal e desalmada do inimigo foram presos e torturados. Alguns não resistiram. Mas a justiça divina se fez presente. Todos viram quando ?nuvens, lá no mata-borrão do céu, chuparam as manchas torturadas e cuidaram para que aquela dor pungente não fosse em vão?. Animados por esse bálsamo sobrenatural, outros brasileiros ergueram a bandeira da liberdade e prosseguiram com o sonho, e lutaram, e fizeram com que o inimigo se rendesse aos indiscutíveis benefícios da democracia. Hoje, vendo o nosso povo pilhado, humilhado e endividado, os homens de quepe devem estar perplexos. E, com razão, pois seus antigos opositores não estão sabendo organizar o País e conduzir a nação. Devem estar se perguntando: que fins levaram aqueles sonhos? Morreram?! Sonhos não morrem, mas podem transformar-se. Para o bem ou para o mal, a depender da ação dos poderes democráticos. E o que vemos? Vemos a força da impunidade incentivar a trapaça, os privilégios e o corporativismo político. Vemos o homem esquecer os seus ideais na busca de um velho e conhecido objetivo: o podre poder. Forjado pelo cinismo, esse monstro não usa a metralhadora, o fuzil e a baioneta. Não tira o sangue, não tortura, não amordaça. Mas, ao se apropriar dos recursos que deveriam ser aplicados no desenvolvimento do nosso País, condena gerações à pobreza e à ignorância; estimula a violência, mata. Ninguém consegue ver nem tocar nesse monstro. Não, não é o governo em si, mas está enraizado no pensamento doentio de alguns homens que nele se instalam. Dia mais, dia menos, haveremos de crescer. Mas não antes de fortalecer nossas instituições, a fim de impedir que a soberania popular fique vulnerável às metamorfoses do caráter do homem. Mas por que estamos demorando tanto? Onde se escondeu a consciência política da nossa sociedade civil? Onde está a independência dos nossos procuradores? Para onde foi a coragem dos nossos juízes? Onde está a imprensa livre e investigativa? Onde estão o nosso orgulho e a nossa auto-estima? Essa letargia cívica também preocupava Martin Luther King: ?O que me assusta?, dizia ele, ?não é a maldade dos maus, mas a omissão dos justos?. (*) É contador.