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A cidade � uma colcha de retalhos?

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| Pedro Cabral * Teodora era tecelã em Fernão Velho, nos bons tempos daquela fábrica de tecidos. Quando criança, eu pude observar um trabalho feito por essa silente mulher que modificava os padrões tão disciplinados daquela época. Enquanto a fábrica têxtil produzia peças de panos de tecidos padronizados, ela, em casa, nas horas de folga, aproveitava as sobras, retalhos desprezados de todas as cores, e produzia lençóis coloridos, moldados por uma barra de uma só cor. E dava unidade, conjunto, harmonia, a uma porção de peças variadas, como se contestasse a mesmice da estandardização industrial e o pensamento da época, prisioneiro de novas idéias. Eu os achava bonitos, mas não eram comuns, sabe como é... Sempre se teme não seguir padrões. Certamente, eu desconhecia um Piet Mondrian. Mas por que essa história tão particular? Porque simplesmente pergunto se as cidades deveriam ser uma espécie de colcha de retalho com suas barras de integração que lhes dê um sentido de unidade de um corpo sadio. Percebo que muitas até trazem suas barras, mas desavisadas com os seus componentes. Um todo a desconhecer suas ricas particularidades. Retalhos desprezados por todos, sem coesão, sem partes que lhes dê um sentido de conjunto. Outras são fígados e intestinos que não precisam de corpo nenhum. E, pasmem, sobrevivem! Uma visão estruturalista de cidade pede sua compreensão como o conjunto constituído de partes que se articulam entre si. As teorias atuais recomendam a tradução dessas articulações em um conjunto de redes interconectadas. Mas se pensarmos numa cidade com uma população grande, onde cada indivíduo tem seus interesses e relações, essa rede matricial se torna bastante complexa. De difícil compreensão ? há prefeito que pensa que andar na cidade é conhecê-la. Como então, organizar um pensamento civil voltado para a urbanidade capaz de reunir essas partes e articulá-las com equilíbrio? A sociedade encontrou nas famílias, clubes, sindicatos, ONGs, partidos políticos, igrejas, internet, esse elo. Na verdade, uns, desprovidos do sentimento de conjunto, outros, desconhecedores dos valores de cada particularidade social. Como então, tecer a colcha de retalhos capaz de se respeitar as partes e ao mesmo tempo ser um todo? Relembrando a colcha de retalho de dona Teodora, eu percebo que a cidade ficaria mais harmoniosa, sendo um corpo preocupado com todas suas partes e estas com o corpo. Mas o meu olhar ainda temeroso me aniquila e, humilde, acato os padrões gerais. (*) É arquiteto e professor de Arquitetura e Urbanismo da Ufal.

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