Opinião
O povo como alvo - Editorial
Pode ser que os poderes públicos não tenham se sobressaltado com a notícia de que as delegacias estarão fechadas durante o carnaval, mas a população deve estar surpresa, decepcionada e apavorada. Antes de se aprofundar no debate sobre o mérito da reivindicação dos delegados de polícia, é mister se questionar a propriedade de uma greve deste tipo num dos momentos mais críticos para a sociedade: o carnaval. Está sendo deflagrada uma greve contra o governo ou contra a população? Indubitavelmente, não é o governo a vítima de uma paralisação dos serviços policiais durante o carnaval. O impacto dessa decisão atinge toda a cidadania, especialmente a grande massa populacional que não tem como se refugiar ? mesmo temporariamente ? sob a proteção da chamada segurança privada. Apesar do reforço que certamente será proporcionado junto à Polícia Militar para a ação ostensiva, o que a PM fará no momento seguinte a uma detenção? Como encaminhar as ocorrências? Mesmo que sejam construídas alternativas práticas para o preenchimento desta lacuna nos dias de paralisação das delegacias, é imenso o impacto negativo desta decisão grevista. O povo sente-se desprotegido, abandonado num momento crítico e os bandidos sentir-se-ão estimulados, livres para agir num período onde crescem enormemente as possibilidades de incidentes em todo o espectro da segurança pública. Que não se negue aos delegados, nem aos policiais civis, nem a nenhuma categoria de trabalho, o direto de greve. Mas a população não pode ser transformada em refém quando dos impasses entre o poder público e os servidores. A conta dos desacordos entre policiais e governo não poderá ser paga com a vida de ninguém. Isto deveria ser reconhecido como uma questão de princípios.