Opinião
Uma paix�o de carnaval
| José Medeiros * Um novo carnaval e, como sempre, as aventuras próprias dessa incomum festividade. Aliás, há certas coisas que somente acontecem sob o manto misterioso desses três dias. Jamais esqueci de uma historieta bastante curiosa, que me foi contada por um amigo do Rio de Janeiro, passada nessa estonteante festa de muito barulho e de muitos excessos. Meu amigo, Osvaldo, era um desses homens que se permitia umas belas férias no carnaval. Solteiro, solidário, boa-praça; entretanto, para ele responsabilidades familiares e de trabalho apenas faziam sentido depois da quarta-feira de cinzas. Até lá, a música, os drinques e os desfiles das escolas de samba davam o tom perfeito àqueles dias mágicos. Naquele carnaval, chegara aos 45 anos, e tudo lhe parecia ainda mais especial. Estava maduro, bem-sucedido e contava com uma energia comparável aos 30 anos. Na noite do último ensaio da escola de samba de sua preferência, observou os olhares provocantes e desafiadores da morena porta-bandeira. Não deu outra: convidou-a para juntos brincarem no carnaval. Ela aceitou e, com a passar dos dias carnavalescos, ele se convenceu de que havia encontrado a companheira ideal para esses festejos, que pretendia fossem de aventuras, extravagâncias e muita empolgação. Na madrugada da quarta-feira de cinzas, Osvaldo permitiu-se um delírio de carnaval: propôs um relacionamento duradouro, romântico, quando o batuque todo acabasse. Ela recusou. Ele insistiu, mas seus argumentos não encontravam eco. Amor de carnaval, dizia Laura, não dava certo na vida real. Já estavam na despedida quando foram assaltados. Ele reagiu, os bandidos atiraram e ela foi atingida duas vezes, no ombro e no abdome. Minutos depois, entre gemidos, perdeu os sentidos. Osvaldo levou-a ao hospital de urgências. O diagnóstico foi terrível: um dos tiros atingiu a coluna vertebral; ela poderá ficar paralítica, disse o médico. Osvaldo acompanhou-a, dia após dia, até receber alta. Pediu licença à família para visitar sua paixão de carnaval. Dois anos se passaram. Laura ficou paralítica. Osvaldo, porém, não a deixou. Simpatia, empatia, amor? Ou simples solidariedade? Ele pediu-lhe em casamento; ela explicou que o amava, mas não aceitava que ele se sacrificasse a esse ponto por ela. Ele insistiu e o casamento concretizou-se. De repente! Uma luz: ela realizou um transplante de medula que, até essa época, não era comum. Meses depois ensaiava os primeiros passos. Uma paixão de carnaval: solidariedade, confiança, amor e fé sobrepujaram os muros altos das dificuldades e dos tropeços. (*) É médico e ex-secretário de Educação e Saúde.