Opinião
O futuro requer mem�ria
| Jenner Bastos * A memória de uma nação é referência obrigatória para a projeção de seu futuro. Que futuro poderia ter uma nação sem memória? Embora alguns padrões se repitam o futuro não é, evidentemente, idêntico ao passado. Se ele repetisse inteiramente o passado, não haveria novidades nem emergências que são características centrais da singularidade dos eventos históricos. E é justamente porque passado e futuro são qualitativamente diferentes, que estudar o passado é tão importante. A consciência sobre o passado nos instrui sobre o que fomos, sobre a nossa evolução histórica e sobre o leque de nossas possibilidades de transformação. Estudar o passado exige mergulho, reflexão e interpretação. Isso requer o máximo arsenal de documentação que formos capazes de reunir. Embora o futuro seja imprevisível, os seus diversos cenários de possibilidades são bem melhor concebidos se conhecermos o passado. Por isso os memoriais, os museus, as bibliotecas, a história das instituições e, mais geralmente, os patrimônios artístico, cultural, natural, científico e tecnológico são tão fundamentais. Recentemente o jornalista e historiador Laurentino Gomes escreveu o livro 1808 a fim de ressaltar a grande importância histórica para o Brasil da fuga da família real portuguesa. A chegada de D. João VI ao Brasil é uma ruptura qualitativa de monta. Nos três séculos anteriores de brutal exploração colonial praticava-se uma política deliberada de manutenção do povo da colônia em um nível de escolaridade que, quando muito, não passava do ensino básico. O ensino superior era reservado para pouquíssimos da elite que podiam ir a Coimbra. A partir de 1808 faculdades são criadas, o Brasil começa a se abrir para o mundo, passa a ter direito de construir estradas e fábricas, passa a ter imprensa, a ter banco, moeda, instituições e, enfim, passa a ter possibilidade de um projeto de país. Gomes manifestou-se surpreso com a ausência de memoriais em sítios históricos do período 1808-1821. O atual museu da Quinta da Boa Vista, prédio onde morou D. João VI, não tem sequer uma placa alusiva; o Paço Imperial é pessimamente sinalizado; e o Mercado do Valongo, onde se praticava o comércio de escravos parece ter desaparecido do mapa, em que pese a sua presumível proximidade do local onde é hoje o Sambódromo. É de crucial importância que sejam construídos nesses sítios históricos memoriais que avivem a lembrança principalmente dos mais jovens acerca do que foi o país. Incentivar o olhar sobre o passado é imprescindível para a reflexão dos cenários de futuro. (*) É doutor em física teórica.