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Transposi��o, ainda n�o

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| Eduardo Tavares Mendes * Não seria de todo inaceitável a idéia da transposição do Rio São Francisco, não fosse a triste realidade que se abateu sobre ele, em face da ausência de uma política minimamente responsável de preservação dos mananciais e do ecossistema fluvial, comportamento que constitui uma vergonhosa, para não dizer criminosa omissão, uma tônica desses últimos governos. É claro que gera sentimento de profunda aflição em todos nós a sede pungente dos nossos irmãos do Sertão nordestino, em virtude da grave insuficiência de suprimento hídrico. Mas, transpor águas de um rio semi-agonizante a este pretexto requer apurada reflexão por parte das autoridades públicas. Filho de Traipu, pequenina cidade situada na margem alagoana do ?Velho Chico?, causa-me forte impacto, e profundo pesar, a imagem que ora vejo de um rio outrora pujante, a esbanjar beleza e fartura. A visão do rio hoje chega a ser fúnebre e desoladora: em seu curso maior, ilhas que nunca existiram e ?coroas? enormes. Em alguns trechos, por pouco não se lhe atravessa o leito a pé. Embarcações, somente as de baixo calado; peixes, quase não mais existem. Já se foram os tempos das canoas de tolda, das ?chatas?, dos ?mandins?, dos ?carás?, das ?xiras? e das cheias periódicas, fundamentais para o ciclo vital e para a fertilização das margens. Na foz, a língua de água salgada avança rio adentro, e cidades como Penedo, em Alagoas, e Propriá, em Sergipe, passaram a sofrer a influência da maré. O rio se encontra com seus dias contados, está morrendo, e seu último suspiro está marcado para a época futura da transposição, quando rios de dinheiro terão sido consumidos em vão, a não ser para o enriquecimento de alguns. Mas, de um País cujos governantes, por uma perversa tradição, não respeitam a natureza; não dão a mínima importância ao meio ambiente e à biodiversidade; não demonstram a menor preocupação com a devastação de sua maior riqueza ? a floresta amazônica, o que se pode esperar? Do que têm valido as lágrimas de dom Luiz Cápio ou os sacrifícios dos movimentos ecológicos? Sobretudo quando já se percebe que as autoridades constituídas de todos os poderes e, em especial, do judiciário, já apóiam a absurda idéia. Apesar de tudo isso, a Associação do Ministério Público de Alagoas realizará em Penedo, em abril próximo, o segundo encontro de promotores do Baixo São Francisco que, na oportunidade, com a presença do Bispo de Barra, na Bahia, dom Luiz Cápio, debaterão o tema: ?Como conviver com a transposição do Rio São Francisco?. Para o religioso, conviver com a transposição das águas do Rio da Unidade Nacional é o mesmo que conviver com uma enfermidade grave. Para nós, beradeiros, não! A transposição ainda poderá ser evitada, e os movimentos contrários a ela precisam ganhar dimensão internacional. Os sertanejos de Alagoas, de Pernambuco, de Sergipe, da Bahia morrem de sede com água praticamente em suas portas. Como acreditar que o êxito da transposição será alcançado somente porque alguns políticos inescrupulosos e sedentos de votos a desejam? (*) É presidente da Ampal.

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