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Opinião

O pinto madrugador

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| Jorge Briseno * Saio apressado do apartamento onde resido ? ali, nas imediações da praça Lions, em Maceió ? e me encanto com o astro-rei. A luminosidade escandalosa fere meus olhos. O céu, completamente sem nuvens e de um azul resplandecente, promete um dia de calor escaldante. Estou atrasado e, somente ao chegar aos Sete Coqueiros, me dou conta de que estou sem óculos e sem nenhum vintém. Nada mais desencorajador. Enfrento o problema com altivez, destemor e galhardia e sigo, corajosamente, em direção ao Pinto. Não sou, amigo leitor, sob qualquer aspecto que se considerar, propriamente um folião. Faltam-me ginga e molejo no corpo e garra, ardor e velocidade aos pés. Porém, um fato que me inebria é o de ir navegando em fluxo contrário àquele rio humano, verdadeiro mar de gente e ser engolido por uma multidão tão díspar. Prossigo no contrafluxo ao bloco, varando estandartes e bonecos das mais diferentes cores, formas e desenhos. Sons de charangas e bandas explodem em meus ouvidos. Hordas de odaliscas, palhaços, piratas, noivas, abelhinhas, urubus, soldados romanos, monjas, índios, frades beneditinos, deusas gregas e egípcias, prisioneiros, marinheiras, xerifes... (Ah, cansei!), embaralham meus passos. Observo um embate extravagante, alucinatório: um almirante gordo, com uma espada, comandando uma legião de lindas grumetes disputava o passo e o espaço com um médico proctologista ? com uma luva enfiada em seu braço, municiada com um dedo indicador de uns 60 centímetros de comprimento por 10 de diâmetro ? chefiando uma equipe de enfermeiras. A cada estocada da espada do almirante, o médico lhe brandia o dedo ameaçador. Em determinado instante, vislumbrei uma ninfa alada flanando por sobre o bloco de ponta a ponta. Devo ter sido acometido de algum desvario momentâneo provocado pela insolação. Repentinamente, sou atropelado por onze taturanas que, em desabalada correria (escapuliam de dois meganhas fortes como centauros), passam gritando no maior alvoroço, num escarcéu alucinante: ?Corre! Corre! Socorro! Ai! Ui! Socorro!? Estava detendo minha atenção em um time de futebol ? de garotas que pareciam vindas de algum país nórdico ?, quando um sujeito fantasiado de Asterix crispa suas mãos em meu braço e dispara: ?Afinal, você está fantasiado de quê?? Olho-me do peito aos sapatos e, meio inseguro da reação do Asterix, afirmo: De mim mesmo! Ele ri e sai berrando: ?Original! Original! Original!? (*) É engenheiro e diretor de operação da Casal.

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