Opinião
Os limites do carnaval
| Marcos Davi Melo * Afinal, de onde surgiu o carnaval? As origens do carnaval remontam à antiguidade pré-cristã. Todavia, da era clássica, as saturnais da Roma antiga, são as suas principais fontes; onde segundo a lenda, Saturno desceu a terra, em algum lugar da península itálica e reinou por apenas um dia. Neste dia, Saturno foi o rei mais generoso; promoveu o conhecimento da agricultura; acabou com a propriedade privada, reduzindo drasticamente as distâncias sociais e as disputas materiais, instalando assim a concórdia e a fraternidade. Promoveu um sistema socialmente justo. Retornando aos céus, Saturno passou a ser reverenciado todos os anos, na mesma época, com música, dança, comilanças e muita alegria. Contam os historiadores, que nas Saturnais, um carro movido por cavalos, fartamente enfeitado percorria Roma distribuindo vinho. Ocorriam peculiares inversões de valores: naqueles dias os escravos eram servidos pelos amos e ocupavam as suas camas e banhos. O soldado mais bonito era eleito o rei da festa, sendo fartamente servido do que melhor existia em comida e bebida. O Rei Momo foi inspirado neste soldado. Sêneca, filósofo e oráculo maior da Roma imperial, diante do que via, afirmou: ?Uma vez ao ano é permitido a todo ser humano, perder a cabeça?. Mas, ressalte-se, este descontrole era apenas aparente, circunstancial, ao fim das festas, tudo voltava ao normal, tal qual ocorre hoje. É preciso se ter a consciência de que existem limites para tudo, inclusive no carnaval. Em Olinda, durante certo tempo o sítio histórico foi ocupado por sistemas de som imensos, que azucrinavam o folião com axé, além do que impediam a evolução dos blocos de frevo tradicionais; ali o carnaval quase que acabou. Foi preciso que a prefeita Luciana Carvalho promulgasse uma lei municipal proibindo o axé no sítio histórico para que o carnaval de Olinda voltasse a ser o mais criativo e descontraído do País. Os bons foliões e os turistas retornaram, os comerciantes e os cofres públicos voltaram a faturar alto. Este é um excelente exemplo que deve ser usado aqui, onde no belo desfile do Pinto da Madrugada no sábado passado na orla; bares, restaurantes e carros de som, com inconveniente música eletrônica e microfones chatíssimos, mais uma vez não respeitaram os bravos e esforçadíssimos músicos das orquestras do bloco. Carnaval é a maior confraternização pública brasileira, é uma utopia breve e passageira ? como os homens precisaram, precisam e vão precisar sempre ?, mas, inquestionavelmente, necessita muito de organização e respeito. (*) É médico e professor da Uncisal.