Opinião
O passeio do pensamento guardado
| Pedro Cabral * Toda casa que se preze, nas condições possíveis do seu morador, deveria ter uma biblioteca. Um cantinho qualquer. Como é bonito observar os livros perfilados disciplinadamente nas prateleiras. Organizados por assuntos para o leitor. Nunca gostei de pedir um livro emprestado. Gosto de tê-los, ao meu alcance, a toda hora. Mas tenho pena deles e de suas solidões. Todos ali, alguns empoeirados, sem perderem o gesto da disponibilidade. Cada um com suas idéias sobre a vida no que a vida pode reparar e conter. Alguns são mais procurados. Outros estão ali e nunca abertos. Talvez tristonhos por não serem lidos. Difícil então olhar aquele mundo que muitas vezes descreve a personalidade do dono da casa, e querer poder ler e saber que o tempo jamais lhe será possível de absorver a todos. Mais das vezes, a informação se debruça pelo modo mais fácil: uma TV no quarto a trazer assuntos que você não busca. Mas os livros estão ali. Um livro para facilitar suas expressões verbais nas conversas por aí. Um livro para explicar como se faz ou como já se fez. Um livro para repensar sua tristeza, seu ódio. Para trazer aquela alegria guardada, a solução contida. Tantas motivações e eles ali perfilados e não lidos. Resolvo mexer com eles e os dar a mesma liberdade que as revistas têm na casa. Fecho os olhos e escolho alguns. Alegres, ? eu sinto ? eles me seguem a conhecer a casa. Deixo um, empoeirado, a fazer sua higiene na sala refrescante de banho. A outro apresento o sofá para um diálogo passageiro. Aqueles me pedem para tocar o chão. E os deixo ledos a sentir o mundo de quem eles tanto falam. Há os que faço descansar da fila impertinente e os deixo repousar sobre a mesa onde trabalho. A sensação é que, de repente, amigos me chegam para conversas animadas. Abro um, e uns versos me são soprados, líricos, na voz da autora. Folheio uma orelha e, alguém elogia, pra variar, o hospedeiro. A cabeça sintoniza vários universos. Tenho então a idéia de os manter espalhados pela casa. Torná-los presentes. No sofá, no chão, no pufe, na rede, na cama. E assim, num ou noutro canto, rindo cá pra mim, para não feri-lo, ouço Graciliano angustiado com um gordinho mau-caráter. Observo Ítalo Calvino conversar com o simpático ar que entra pela fresta da janela e segreda saber se um viajante numa noite de inverno conhece as palavras. E silente, Rubem Fonseca me olha. Talvez querendo saber de mim. Talvez sonhando falar dele e suas vastas emoções e pensamentos imperfeitos. E assim o meu mundo se torna mais mundo. Até a diarista nota, ao me ver levar um livro para a rede: ?O senhor já vai viajar sem sair do lugar?. (*) É arquiteto e professor da Ufal.