loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
quarta-feira, 05/08/2026 | Ano | Nº 6282
Maceió, AL
24° Tempo
Logo Gazeta de Alagoas Logo Gazeta de Alagoas
Home > Opinião

Opinião

O soneto como forma po�tica

Ouvir
Compartilhar

| Cláudio Vieira * Minhas reflexões têm me feito acreditar no perdimento da cultura literária entre as gerações mais novas. Soneto? Poema heróico, romântico ou realista? Versos decassílabos? Dodecassílabos? Que diabos será isso? As canções de bem-querer ou de malquerer, essas, coitadas, hoje são sequer imaginadas terem existido, muito menos admiti-las como precursoras das canções de todos os tempos, inclusive das modernas, por mais estapafúrdias que sejam essas últimas. Por isso, não vejo deficiência intelectual na juventude. Não! Deficientes são professores ? não todos, graças a Deus. Ou o ensino. Ou, talvez com maior certeza, a culpa seja da pouca importância que as autoridades dão à educação, preferindo carrear verbas mais para os seus louvores do que investirem no futuro das gerações. Aproveito a sossegada (para mim, claro!) terça-feira de carnaval para terminar a leitura de mais uma primorosa obra da amiga Renira Lisboa de Moura Lima. Completo, assim, a lida de ?A forma soneto?, o que me faz regredir à adolescência. O livro de Renira faz-me lembrar que já fui poeta, primeiro com o cuidado do sonetista e, após, deixando os versos fluírem livres e soltos da métrica euclidiana, às vezes leves como balões; outras, pesados de mágoas do coração, reais ou imaginárias, que poeta não encontra limites para o devaneio. Há muito troquei a poesia pela prosa ? a prosa conto ou romance ? pois, se, nas palavras de Fernando Pessoa, ?o poeta é um fingidor,/ finge tão completamente/ que chega a fingir que é dor/ a dor que deveras sente?, o prosista/contista/romancista impõe suas dores aos personagens que cria, preservando-se ele mesmo das inquisições alheias. Nada mais cômodo! Renira é magistral professora, pedagoga, educadora, na mais profunda acepção dessas palavras. É, também, poetisa, embora pareça não admitir o fato. Esconde-se, ela, em uma prosa técnica bem elaborada, profundamente culta, mas, mesmo assim, de uma leveza de bardo. Constata-se essa vocação na escolha dos sonetos que lhe ilustram a obra singular, revelando o que realmente é: espírito sensível à força dos sentimentos, dos pensamentos e das palavras. Nela encontramos desde sonetos italianos, franceses, shakespearianos, até o coroamento com o símbolo brasileiro da poesia, o ?Soneto de Fidelidade?, do nosso Vinícius de Moraes. Pesquisadora profícua, encontrou a poesia de Machado de Assis e não esqueceu do conterrâneo Guimarães Passos. Quem sabe, a ?Súbita mão de um fantasma oculto? não fará exsurgir a Renira poetisa? (*) É advogado militante.

Relacionadas