Opinião
Pilombetinhas
| Ronald Mendonça * Auditora da Receita Federal, tinha singular desvio do comportamento sexual. Na repartição era conhecida pela gana com que autuava os contribuintes. Varando madrugadas, evangélica, celibatária, meticulosa, preferia trabalhar sozinha. Na realidade, descobriu-se tendo orgasmos sucessivos enquanto vasculhava falhas reais ou imaginárias nas declarações de renda dos médicos. Com o tempo, farejava o código do profissional. Muitos já eram seus conhecidos e se excitava só em ouvir falar em seus nomes. Nas ocasiões em que pessoalmente atendia às vítimas das suas taras gemia e contorcia-se de forma tão escandalosa que se tornou inapta para essa atividade específica. Nas vésperas de sua aposentadoria teve morte súbita, certamente porque o velho coração não resistiu às emoções. Na mesa de trabalho, cinco declarações de médicos. Essa história sórdida veio à tona pela descoberta de falcatruas no uso dos cartões de crédito ?corporativos?, instrumento mágico que o governo fingia fiscalizar e que faz a alegria de cerca de doze mil sortudos Brasil afora. Varinha de condão que transforma dejetos em ouro e patrocina da tapioca a incursões em free shoppings, sofreu um revés momentâneo ao se constatar que dona Matilde, ministra de alguma coisa parecida com ?igualdade racial? extrapolou e detonou quase duzentas mil pilas, só em 2007. Um outro, um certo Orlando Silva, ministro dos desportos ? o tal da tapioca ? pego com a boca na botija, antecipou-se e marcou presença em cena midiática, devolvendo 30 mil reais, para mostrar que tem honra, ainda que tardia. Matilde e Orlando foram até tímidos nas suas beliscadas. Se comparados à turma do mensalão e a outros esquemas menos divulgados estão mais para a categoria de ?fura-pacotes?. No universo de tubarões, são prosaicas pilombetinhas. Antes de atirar pedras, é preciso que se proclame que nunca nesse País se viveu com tanta intensidade a igualdade racial. A partir de direito quase constitucional, a origem afro dos ministros os autoriza a meter a mão no erário, com gosto de gás, tanto quanto José Dirceu e outros branquelas do governo Lula. Não ao preconceito: ministros pretos têm, sim, o mesmo direito a nos roubar que os brancos. Nesse aspecto, a história da auditora tarada da receita tem tudo a ver. É claro que o afã arrecadatório tinha lá suas perversões. Não obstante, os contribuintes precisam chegar junto e garantir os múltiplos prazeres de ministros et caterva. (*) É médico e professor da Ufal.