Opinião
Um governo oposicionista
| Jorge Briseno * Estou convencido, gentil leitor, de que alguns integrantes do governo Lula ? e também o próprio presidente ?, estão acometidos de uma avassaladora miopia. Uma total e absoluta incapacidade de enxergar o óbvio. De não ver o que se descortina claro como o mais esplendoroso raio de sol. O que me angustia ? e o governo não vê ? são as contradições entre seus integrantes em todos os assuntos. Chego a ter a sólida convicção que coexistem, dentro dessa esfera de poder, dois gabinetes: um da situação e outro da oposição. Veja você se não tenho razão. Outro dia eu tinha acabado de ser testemunha ocular e auditiva, durante o Jornal Nacional, das revelações do Lula sobre a aceleração do desmatamento na floresta amazônica. Deu várias, inúmeras explicações, e isentou o agronegócio de ter contribuído para a devastação. Satisfeito com os esclarecimentos do nosso maior mandatário, saio à rua para comprar um jornal na banca da esquina. Lá, encontro-me com um amigo. Após as cortesias e salamaleques de praxe, o assunto envereda na questão do desmatamento da Amazônia. O amigo então afirma: ?A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, estava há pouco no Jornal da Band, afirmando que a culpa pelo desmatamento era do agronegócio?. Fico petrificado, atordoado. Indago ao amigo se ele tem convicção do que ouviu. Se por acaso não estava dormitando. E ele: ?De forma nenhuma. Eu estava de olho pregado na televisão?. E, solicitando segredo, quase sussurrando, confessa: ?Não tinha como me distrair. Eu sou apaixonado pela ministra, com aquela sua pele cor de mel, aqueles olhos amendoados transparecendo uma melancolia profunda, abissal?. Ora, se temos ministros que agem como discordantes, também possuímos órgãos governamentais que atuam como ferrenhos opositores das propostas do Lula. Veja, amigo leitor, o caso da transposição: a ANA (Agência Nacional de Águas) possui um estudo para abastecer as comunidades do Semi-árido nordestino que custa a metade do projeto de transposição das águas do São Francisco. E mais: sem que seja necessário transpor um litro de água sequer de um rio que está morrendo. Ora, observe se a ANA não age como um insidioso órgão dissidente? Volto para casa e minha filha corre para relatar um fato escandaloso que tinha visto na televisão: um sujeito atravessando de moto o São Francisco, como se o rio, por artes do demônio, fosse um córrego, um riachinho qualquer. No caso da transposição, prefiro ficar com a ajuizada e oposicionista ANA. (*) É diretor de operação da Casal.