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Cr�nica de um genoc�dio anunciado

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| Ronald Mendonça * No auge da pressão do movimento que pretendia o fechamento dos hospitais psiquiátricos, no ano 2000, participei de uma audiência pública na câmara de vereadores de Maceió. Mobilizada pela recente aprovação da ?lei Delgado?, boa parte da opinião pública, incentivada por escabrosas reportagens, achava que os hospitais psiquiátricos eram de fato abomináveis. Uma sociedade moderna não podia abrigar no seu seio semelhante deformidade. Era um ?tumor maligno? que precisava ser extirpado definitivamente. Lembro dos argumentos dos demolidores dos asilos. Em um deles, uma jovem psicóloga, com direito a assento na mesa principal, remplie de soi même, garantia que era, sim, viável curar doentes mentais em hospitais gerais. Sua verve baseava-se nas ilações de um único caso, supostamente bem-sucedido, ocorrido na cidade do interior onde trabalhava. O doente saíra lépido e fagueiro depois de permanecer alguns dias num hospital geral local e até prescindira do psiquiatra. Ou seja, de uma só tacada, a moça não só varria do mapa os hospitais como exterminava os psiquiatras. Nem só de psicólogas viveu a luta anitimanicomial. Um conselheiro federal, afamado pela ronco da sua operosa cureta (quando as curetas raspam o útero emitem um ruído próximo ao das cuícas), escreveu contundente artigo denunciando ?torturas? nos hospitais psiquiátricos, conclamando pelo imediato fechamento das ?pocilgas?. Nem 10 anos se passaram... A drástica redução de leitos psiquiátricos jogaria na rua milhares de doentes. Cresceram taxas de homicídios e suicídios. A tudo, o Estado assiste de camarote. Quem de fato está preocupado com isso? Afinal, são anônimos, miseráveis e... loucos. Está na internet. Há poucos dias, no Rio Grande do Norte, um paciente em surto psicótico matou dois filhos e incendiou a casa. Faleceu três depois de ser linchado pelos vizinhos. O detalhe é que no dia anterior ao da tragédia foi-lhe negada a internação... A propósito, relembro a história do português excêntrico conhecido como Beijoqueiro, apelido conquistado pela habilidade com que driblava sistemas de segurança para beijar figuras famosas. Um dia, parou o trânsito no Rio de Janeiro deitando-se em plena avenida Rio Branco. Dali foi direto para uma clínica psiquiátrica. Santa internação! Ao folhear as fotos do carnaval deste ano deparei-me com o Beijoqueiro, com a corda toda, a sapecar beijos nas gostosas beldades da Marques de Sapucaí. (*) É médico e professor da Ufal.

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