Opinião
As tenta��es
| Marcos Davi Melo * Um dileto companheiro de caminhadas na praia, portador de uma vistosa cabeleira branca, sempre que cruza com uma moça bem provida pela natureza, vestindo um traje insinuante que lhe realça as formas físicas, fica com o olhar mortiço, um fio de baba caindo pela boca meio aberta, como se fosse um peixe morto. É preciso que alguém o desperte de seu transe, antes que tropece e se esborrache na calçada. Foi inspirado nestes momentos que Oscar Wilde, exclamou: ?Posso resistir a tudo, menos as tentações!?. Santo Agostinho, o grande teórico da Igreja Católica, mas que antes de se tornar um santo, teve uma vida conjugal, onde gerou inclusive um filho, era atormentado pelas tentações do sexo; quando já ungido pela luz celestial, mas ainda navegando pelas veredas da carne, diante de forte apelo sensual de algumas mulheres muito jovens e belas, sentiu-se tão tentado que exclamou: ?Senhor, daí-me a virtude e a castidade, mas não já!?. Pasolini, em seu belo filme O Evangelho Segundo São Mateus, mostra um Cristo muito humanizado e próximo de nós, a tal ponto que em seus sonhos, tentado por Maria Madalena, sente-se diabolicamente atraído. Na época isto causou uma grande polêmica, embora o filme, mesmo sendo dirigido por um comunista agnóstico, mantivesse além do bom gosto, um grande respeito pela figura do Redentor, que em nenhum momento sucumbia. Diante das tentações, existem os que imediatamente sucumbem, como Wilde dizia: ?A única maneira de livrar-se de uma tentação é ceder-se a ela?; e os que resistem, destes, apenas uma minoria ínfima por puro virtuosismo. Mas nada tenta o homem mais do que o dinheiro e o poder. O poder é como o Drácula, nutre-se da escuridão, não resiste à luz do dia. Daí que a explosão de falcatruas e irregularidades, agora descritas nacionalmente no uso do cartão corporativo e em Alagoas na Assembléia Legislativa, demonstra que a democracia é apenas uma lanterna que ilumina um pequeno espaço na escuridão da negra floresta; além do foco da luz o que existe é o negrume desconhecido que precisa ser investigado sempre. Como a esbórnia com o erário é generalizada e envolve de anônimos a um homem provido de muito saber, como em tese deveria ser o reitor da Universidade de Brasília, que não teve a mínima vergonha em usufruir de abusivo luxo doméstico à custa dos cofres públicos, enquanto a sua universidade caía aos pedaços; o que se deve fazer é reduzir as oportunidades de lesar os cofres públicos; tal qual afirmava o Marques de Marica: ?Quando evitamos as ocasiões, evitamos as tentações?. (*) É médico e professor da Uncisal.