Opinião
Quem vir� pro jantar?
| Pedro Cabral * O apartamento é daqueles que têm sala de jantar, como se fosse comum não tê-la. Uma sala ventilada, majestosa, a conter uma imensa mesa para o desjejum, o almoço, o jantar. A mesa, dessas de revista de decoração, tem um caminho de mesa discreto e monocromático, dir-se-ia elegante, desses vistos em novelas. E, como não? Completa-se com suas cadeiras impecáveis, dessas que se destinam supostamente às pessoas que precisam, sentadas, degustar, compartilhar sonhos, convencer a vida, planejar desejos. Um jarro de cristal reina sobre o caminho de mesa que descansa sobre o tampo de vidro grosso. O caminho de mesa, mais comprido que esperança de pobre, quase toca o chão nos dois lados menores desta mobília. A sala de jantar traz ainda uns belos quadros de pintores alagoanos, estes, muitas vezes, mais esquecidos pela cultura local que criança nos carros de certos pais. Disponibiliza ainda uns aparadores cheios de personalidade. O ambiente é de bom gosto, refinado, pronto para sair em qualquer revista, sim, dessas de decoração ou de vislumbre social. Integrado à sala de estar, esse ambiente transmite esmerada disposição de servir aos donos. Volta e meia, a secretária do lar usa um espanador de pena, desses vistos em novela também, e um refil de um produto inodoro, e limpa e asperge e limpa o tampo de vidro, já tão brilhante quanto discurso de candidato prometendo resultados, caso ganhe a eleição. E assim, a sala vai fazendo o papel de deslumbrar as visitas. No apartamento, além da secretária do lar, moram dois indivíduos com cromossomos XX e três com cromossomos XY. Poderia ter um cão, mas não tem. Em outros tempos, quando a Igreja era mais eficiente, esse conjunto se apelidava família. Nunca fazem os desjejuns juntos. Também isso não acontece nas outras refeições recomendadas. No mais das vezes, é a secretária e um dos indivíduos a trocarem conversa nessa hora. Um diálogo prazeroso: ?Prepare um suco!?. ?Sim, senhor?. E isso tudo ocorre não à mesa de jantar, mas numa mesa auxiliar, na cozinha suada, posto que a nossa descrita mesa de jantar não pode se destinar à função de comer. Que ultraje! Ela foi feita para brilhar, para ser exposta aos olhos curiosos das amigas de madame. Cair uma migalha de pão? Que horror! A não ser, claro, se uma visita for convidada pro jantar. Aí, como diz aquele jargão: ?aí, pode?. Mas alguém da ?família?, no dia-a-dia, comer aí? Não! Não pode! Na cozinha quente? Aí, pode. (*) É arquiteto e professor de Arquitetura e Urbanismo da Ufal.