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Opinião

E a �gua, mo�o?

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Jorge Briseno* Lembro que o sol era abrasador. A atmosfera, causticante. Pena que não seja eu um descritivo para captar toda a intensidade da natureza seca, de desoladora beleza do Sertão. Somos, eu e você, meu caro leitor ? ai de nós! ?, feitos de ternura e sensibilidade, e confesso que sinto um prazer visual ao contemplar a vegetação acinzentada do Semi-árido alagoano, espalhada em uma imensidão alucinante, contrastando, aqui e acolá, com o verde insolente dos resistentes umbuzeiros. Estávamos, eu e um colega, realizando estudos para implantar, em um povoado sertanejo, um sistema de água potável quando ocorre um fato prodigioso: somos cercados, repentinamente, por um grupo de crianças. Uma garotinha agarra-se à minha perna e suplica: ?Ei, moço, me dá um real?. Ao passar-lhe a moeda, olho para seu rosto e recuo, assombrado, um passo. Estava diante dos mais lindos olhos ? pareciam inconsoláveis ? que já vi em toda a minha vida. De um cinza arrebatador. Da mesma cor da caatinga. Curiosa, a menina pergunta: ?O que vocês estão fazendo aqui?? Recompondo-me do susto, respondo: ?Estamos tentando trazer água para a sua casa?. E indago: ?Onde você mora?? A menina levanta sua mão e aponta seu dedinho para uns casebres distantes. Puxo assunto: ?Onde você consegue água?? Ouço da menina: ?No rio. Minha mãe fez uma cacimba na beira do rio. Todo o dia eu pego um balde lá?. A garotinha então dispara a pergunta irrevogável, inapelável, fatal: ?Quando chega a água??. Calo-me. Não sei o que responder. Ou melhor, sei, sei sim. A resposta que poderia lhe oferecer surge como um clarão diante dos meus olhos: se os mais de 280 milhões de reais não fossem surrupiados nos descaminhos da volúpia escandalosa da Assembléia Legislativa, você, menininha dos olhos cinza-claro, e quase todos os habitantes dos povoados do Semi-árido alagoano teriam água tratada em suas residências. Penso se devo explicar isto a ela. Não, não devo. Tenho receio de inocular ódio em seu coração, e uma criança não deve odiar. O ódio ? este sentimento que deforma a pessoa, que a avilta, que a coloca próxima à loucura ? é próprio dos adultos, e uma criança não deve conhecê-lo. A mãe da garota chama-a. Ela se afasta de mim correndo por uma trilha, deixando atrás de si um rastro de poeira. Entregue à solidão mais cavernosa, percebi, neste momento, que tinha perdido as minhas certezas e esperanças, restando em mim todas as dúvidas e as mais negras iniqüidades humanas. (*) É diretor de operação da Casal .

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