Opinião
O bom velhinho
Ronald Mendonça* A comunicação entre os homens, não obstante a complexidade dessa ferramenta chamada linguagem, naturalizou-se de tal forma que já não nos impressiona tanto. No mundo animal mais inferior, embora haja indícios incontestáveis de comunicação, boa parte desse enigma permanece inviolável. Para os estudiosos da área, penetrar nesses segredos deve ser fascinante. Leio na Folha de São Paulo de 20/02/08 que o pássaro pula-pula-assobiador teve o seu sistema de comunicação desvendado. A matéria chama a atenção para o pioneirismo da descoberta, o que por si só já justificaria o espaço no conceituado diário. Texto claro e conciso, o que mais me impressionou foi o peso do animal, até então, para mim, apenas uma expressão metafórica: 25 gramas. A revelação, certamente óbvia para a maioria das pessoas, despertou-me lembranças da infância em Bebedouro, quando acompanhei amigos em aventuras pelos remanescentes de mata dos arredores. Não é sem pudor que confesso ter mirado algumas vezes nessas frágeis e inofensivas criaturas. Míope e sem treino, o que consola é a lastimável pontaria, detalhe que me fazia errar em todas as tentativas. Há seres que nascem pássaros, outros assim se fazem. Devastado por inexorável mal, frágil e leve (talvez não tão inofensivo), nesta semana quem se despediu da ribalta foi Fidel Castro. Despertando ímpetos de oferecer-lhe ninho, os últimos vôos do bom velhinho prenunciam o fim de um ciclo. Aluno do Diocesano no período em que assomou ao poder, ouvi dos maristas críticas e elogios. Um dos comentários mais recorrentes referia-se ao suposto discurso em que Fidel prometia manter-se um passo à frente dos grandes impérios, porque um dava o pão, mas cassava a liberdade, e o outro dava a liberdade, mas negava o pão... A revolução cubana açodaria ânimos. Entre nós, um dos companheiros, Che Guevara, sanguinário com ares de romântico, certamente por suas origens e formação intelectual, faria a cabeça de jovens da classe média, muitos deles pondo mãos em armas para peitar, em luta suicida, a sanguinária ditadura militar. Esperneando pela falta de generosidade do vizinho inimigo, a bem da verdade, a ilha caribenha nunca teve muita sorte. Antigo alvo de piratas, ironicamente só encontrou alguma estabilidade quando foi amordaçada por ditaduras. Por isso, no momento em que seu mais longevo ditador vira uma pombinha sem fel, além do bem e do mal, a gente tem mais é que torcer pelo seu futuro. (*) É médico e professor da Ufal.