Opinião
A lagarta e a presun��o de inoc�ncia
| André Falcão de Melo * Desvios de cerca de R$ 280.000.000,00! Confesso que dei uma conferida, para ver se tinha posto a quantidade correta de zeros. Pura falta de intimidade. Até para escrevê-lo. Dinheiro demais, mermão! E pensar que alguns dias antes de ter-se tornado pública a ?Operação Taturana?, escrevi uma crônica, intitulada ?Operação Caça-Fantasmas?, publicada aqui mesmo nesta Gazeta, onde sugeria a criação de uma nova operação policial para caçar os funcionários-fantasmas deste Estado. Só que, coitado, referia-me aos servidores (?) que efetivamente recebiam do poder público, porém ?apenas? não trabalhavam. Falta de imaginação da pega! No atual esquema, os fantasmas ou sequer recebiam seus (?) vencimentos, ou recebiam apenas uma parcela ínfima deles. O restante ia pro bicho de fogo. Assim, a par, ainda que superficialmente, da dinheirama, engenho e criatividade empregados pelo ex-lepidóptero, impressionou-me o silêncio respeitoso acerca das autoridades envolvidas. Ôxe, até antes de ter sido descoberto o bicho peludo (a lagarta, por favor!) comedor de folhas de pagamento, cansei de ver, ler e ouvir condenações sumárias de pessoas, sem a mínima cerimônia dos respectivos algozes, a partir de denúncias incipientes, sequer ainda investigadas. E eu pensava: que indícios, ao menos, há contra ele(s)? Imediatamente recordava-me do clássico (e tenebroso) caso dos diretores da Escola de Base de Brasília, cuja inocência restou provada em juízo, mas, após escangalhadas suas honras e vidas. Agora, não! Apesar do volume de dinheiro que a Polícia Federal assegura, após meses de investigação, ter sido surrupiado dos cofres públicos, da atuação do Ministério Público e da Justiça Federal ? esta autorizando escutas telefônicas, quebrando sigilos, expedindo mandados de prisão temporárias (e também preventivas) ?, e do crime investigado envolver membros do próprio poder onde se alojou a perversa comilona, constato, hoje, que na sociedade alagoana ? civil, ou não, organizada, ou não ?, à quase unanimidade (há sempre alguns poucos ?desaforados?) impera o mais absoluto respeito à presunção legal de inocência dos envolvidos. Há um cuidado tão grande, mas tão grande ao tratar-se publicamente do apontado envolvimento das autoridades no esverdeado e rastejante caso que não pude deixar de me surpreender e indagar: por quê? Seria respeito? Ou medo? Ôxe, que nada. Evoluímos! Ah, tá. (*) É advogado ([email protected]; http://afalcao.blogspot.com)