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Opinião

� bom fazer o bem

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| Anilda Leão * Nós, viventes deste planeta belo e ainda tão imperfeito ? por absoluta culpa nossa, que somos tacanhos, mesquinhos e por isso mesmo dignos de aqui ainda mourejar ? temos sempre a expectativa de que um dia se possa vivenciar um mundo de paz, amor e fraternidade. Essa é a esperança humana, o que nos leva sempre para frente, apesar de todos os obstáculos que aparecem em nosso caminho. Falar em fraternidade numa época movida pelo egoísmo é necessidade cada vez mais premente. Pois, muitas vezes, as pessoas esquecem que simples gestos de solidariedade podem fazer diferença para os mais necessitados. Gestos esses que não implicam necessariamente em que tenhamos que dispender muito do nosso tempo ou da nossa ?bolsa de valores?, ultimamente tão fraquinha. Aproveito a ocasião para narrar um caso que vivenciei há alguns lustros, quando dava expediente na Secretaria de Cultura, na Rua Pedro Monteiro. Ao sair do trabalho, encontrava-se na esquina um menino de oito ou dez anos tomando conta de uma cesta de pitombas e carambolas. Aquela voz carinhosa a me chamar de tia não me deixava ficar indiferente e eu sempre acabava comprando alguma coisa. Com alegria, mostrava-se agradecido invocando o nome de Deus. Passaram-se os anos, me aposentei e não mais o vi. Meus rumos eram outros. Uma tarde, andando pela Moreira Lima onde fora fazer compras, deparei-me com um rapazinho nos seus 15 anos, do outro lado da rua, me acenando efusivamente. Atravessei a rua e, ao vê-lo mais de perto, reconheci o garoto que me chamava carinhosamente de tia lá na esquina da Pedro Monteiro: os mesmos cabelos encaracolados, os olhos esverdeados. Apertou-me a mão e contou que vivia com uma tia que costurava roupas de cama para um hospital. A mãe havia morrido e a única irmã fugira com o namorado. Apoiei-me no batente de uma vitrine para melhor ouvi-lo sobre problemas da família. Felizmente aprendera a ler e a escrever com a tia, mas abandonara a escola, que vivia fechada com sucessivas greves de professores. Ao lado, uma caixa de papelão com agulhas, alfinetes, carretéis de linha, essas coisas. Era o seu ganha pão do momento. Ao despedir-me, pedi que jogasse o conteúdo da caixa na minha sacola. Arregalando os olhos, fez o que eu pedi, mas protestou não ter troco para a nota que lhe dava, cerca de dez ou vinte reais de hoje. Não lhe dando mais ouvidos, abracei aquele menino e recebi um beijo no rosto e bênçãos emocionadas. Senti que aquele garoto estava feliz. E eu também. (*) É escritora, atriz e cantora.

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