Opinião
A s�ndrome da UTI
| Luiz Barroso Filho * Este ano, em 30 dias, minha família ficou desfalcada de dois queridos integrantes. Como costuma dizer o artista Rolando Boldrin, ?eles viajaram antes do combinado?. Para melhor entender, no dia 25 de dezembro do ano passado, meu tio Aloísio foi internado na UTI de um conceituado hospital de Maceió, onde faleceu no dia 19 de janeiro. Já o meu irmão Ronaldo deu entrada na UTI de outro grande hospital de nossa cidade, em 27 de dezembro e morreu no dia 19 de fevereiro, em decorrência de complicações pós-operatórias, exatamente um mês depois do falecimento do tio. O acompanhamento da agonia desses estimados parentes durou 55 dias. Foi um período de angústia para mim e para minha família, que a cada visita diária à UTI saíamos mais tristes, devido ao agravamento do estado de saúde deles, que gostavam tanto da vida e que, além da imensa saudade, deixaram exemplos de honestidade, retidão de caráter e eram dotados de um sentimento que a cada dia está se tornando mais raro entre as pessoas: a solidariedade. A esse respeito, é atribuída ao escritor Otto Lara Resende a autoria da frase muito citada pelo dramaturgo e jornalista Nelson Rodrigues: ?O brasileiro só é solidário no câncer?. A máxima cabe neste comentário, pois foi o que pude sentir dos familiares de outros pacientes, dos amigos e até de pessoas desconhecidas nas salas de visita das UTIs, durante quase dois meses de peregrinação naqueles importantes serviços médicos hospitalares, onde a luta pela vida nem sempre resulta vitoriosa e a frieza dos profissionais na relação com os pacientes muitas vezes é chocante; assim como é observado o desencontro de informações aos parentes dos doentes, a cada troca de plantão, talvez pela falta de integração nas ações das equipes médicas, formadas por pessoas que vivem no corre-corre, lutando também pela própria sobrevivência. Mas as adversidades foram amenizadas pela solidariedade e pelas palavras de conforto dos amigos e de pessoas anônimas que passavam pelas mesmas dores e aflições, independentemente da condição social, raça e crença religiosa. A crença de quem precisa ou de quem freqüenta UTIs, deve ser sempre que a Medicina não é uma ciência exata; o médico não opera milagres e forças mais poderosas do que as máquinas e os medicamentos governam a vida que, como disse o cineasta Woody Allen, é cheia de solidão, miséria, sofrimento e infelicidade ? e acaba rápido demais. (*) É advogado, membro da Academia Maceioense de Letras e da Comissão Alagoana de Folclore.