Opinião
Cuba e a autodetermina��o
O ?vôo da solidariedade?, organizado pelo saudoso companheiro jornalista Freitas Neto, partiu do Recife, em 1995. A bordo do avião russo Ilyushin, alagoanos e pernambucanos visitaram Havana, capital de Cuba. Em regra, uma viagem abre janelas para captação de conhecimentos, mas essa se revestiu de significado especial para mim e para os demais integrantes da delegação, pois Fidel e sua revolução se mitificaram no tempo e nas mentes de toda uma geração sedenta por transformações. Visitamos a ilha numa fase em que o governo enfrentava as conseqüências do fim da ajuda da antiga União Soviética. Eram, a olhos vistos, o sucateamento da frota e os sucessivos ?apagones? para racionar energia. A ilha depende de petróleo para geração energética. Quando o Brasil sofreu com o apagão, aí se constatou outra irresponsabilidade cometida contra um País tão rico de oportunidades, o que não é o caso da ilha. Não pensei que ia encontrar um pedaço do paraíso, onde todos viviam felizes, sob a falsa bandeira da igualdade e do humanismo, tão reverberada pelos defensores do chamado ?socialismo real?, sobretudo no período da ?guerra fria?. Também não imaginei me deparar com uma central de atrocidades cometidas contra o homem, como trombeteia a propaganda norte-americana. Cuba é o que é, com defeitos e virtudes. Numa noite, em jantar oferecido na embaixada brasileira, perguntou-se a um diplomata sobre as fugas de cubanos em arriscadas travessias pelo mar do Caribe. A resposta, em tom de indagação: ?ocorrem casos isoladamente, mas se a Rocinha estivesse a 90 milhas da Flórida, o que aconteceria?? O fato é que, diante de tantas adversidades, da economia travada, há políticas públicas em Cuba que são conquistas inquestionáveis, inclusive no esporte. E o IDH de 2007 em 51º, enquanto o Brasil ficou em 70º? E o índice de mortalidade infantil? Lá é de 5,3 crianças para cada grupo de mil, nos EUA chega a 7 por mil e no nosso País está em 27. A taxa de alfabetização na ilha é de 99,8%, há um médico para cada 160 cubanos e o programa médico de família tornou-se ?tipo exportação?. Fidel, portanto, tem seus méritos e não deve ser nivelado a um Saddam, cria do próprio intervencionismo de Washington, que utiliza a base de Guatánamo, em Cuba, como cadeia clandestina. O povo cubano precisa de uma chance, sem embargo econômico, sem os fantasmas dos vôos rasantes de caças em plena madrugada. (*) É jornalista e ex-secretário de Comunicação do Estado.