Opinião
O dia do riso
Dizem que rico ri à toa. Talvez por isso não tenha causado estranheza a foto do diretor da receita federal, Jorge Rachid, comemorando a inédita arrecadação de impostos neste mês de janeiro. Outra imagem bastante significativa captada pelo cinegrafista da TV mostrava o ar de riso, discreto, é bem verdade, de um companheiro deputado durante sessão na Assembléia Legislativa alagoana. Imagino que deve ser muito engraçado mesmo abrir os ?trabalhos? de um parlamento sobre o qual pairam fortes indícios de desvio fraudulento de cerca de trezentos milhões de reais. O detalhe que revela o alto nível de seriedade deste poder é que neste dia do riso, dos 27, havia no recinto três ou quatro deputados. Coincidentemente, naquela tarde, o Tribunal de Justiça estava decidindo o afastamento de membros da Mesa Diretora da Assembléia, supostamente envolvidos com a espantosa roubalheira. Todos pensaram que os nobres parlamentares estariam recolhidos em oração, daí talvez o riso contido do companheiro. Quanto ao riso do senhor Rachid, há um quê de hiena. Explico: todos sabem que o imposto de renda é antes de tudo injusto e mal empregado. Alimentado principalmente pela sucção aos salários da classe média, sua matemática é perversa, impelindo o contribuinte a enveredar pelas escorregadias trilhas da sonegação. Calcula rasteiramente as despesas, sobretudo aquelas ligadas à educação. Além disso, a não ser pelo viés da humilhação, desconsidera gastos que os avós realizam com os netos, quando todos neste País estão cansados de saber que anciãos de todas as classes são convocados a comparecer financeiramente com os dispêndios dos netinhos. Diante da foto triunfal de Jorge Rachid, formulo a pergunta recorrente: para que serve afinal o imposto de renda? Sem perspectivas de melhora, não dá para passar na porta de uma escola do governo; a saúde pública é repulsiva. Claro, temos água encanada e energia elétrica no poste, mas pagamos adicionalmente por esses serviços. Se a cidade está sendo embelezada é por conta de novas taxas. O fato é que no fundo, no fundo, a alegria do cobrador de impostos e do deputado tem tudo a ver. O dinheiro que nos é arrancado passa pelos cofres da Receita Federal e segue manjado trajeto. Além de alimentar obras superfaturadas, cartões corporativistas e o parasitismo de milhares de companheiros e apaniguados, destina-se às contas bancárias dos laranjas. Com as sobras, burne-se a imagem do Lula. (*) É médico e professor da Ufal.