Opinião
Pirro, pirra�a e CPMF
Após a vitória sobre os romanos, na batalha de Asculum, o rei Pirro viu seu exército praticamente destruído. Conta-nos a história que ele teria dito: ?Mais uma vitória como esta e fico sem soldados?. A vitória de Pirro me fez lembrar o triunfo da oposição sobre o governo, na luta contra a CPMF. Antes de escrever sobre a insensatez do embate, procurei entender a lógica do tributo. Imaginei o caso de um cidadão que consome mensalmente a sua renda de R$ 6 mil. Neste caso, pagaria R$ 22,80 sobre os saques (0,38% sobre R$ 6 mil) e R$ 155,41 sobre o consumo, cuja tributação média das atividades na cadeia produtiva está próxima de 2,6%. (R$ 6.000,00 ? 22,80 x 2,6%). Total: R$ 178,21 (R$ 22,80 + R$ 155,41). Voltemos às discussões políticas, no final provaremos que, mesmo depois de morta e enterrada, o fantasma da CPMF continuará amedrontando a todos nós. Pois bem, horas antes da votação que sepultou o ?imposto do cheque?, o governo prometeu aplicar exclusivamente na saúde os recursos provenientes da sua arrecadação. A oposição recusou a proposta dizendo não acreditar na palavra do governo. Na verdade, fez pirraça com o único objetivo de enfraquecê-lo. Ora, se não acreditou que os recursos da CPMF seriam aplicados na saúde, deve ter a certeza de que os outros tributos também estão sendo desviados das suas finalidades constitucionais. Mas, no lugar de pegar forte, a oposição diz que vai continuar fiscalizando o governo. Como são estranhos os seus métodos! Se fiscalizar fosse apenas extinguir tributos mal administrados, estar-se-ia apenas exacerbando a bancarrota social. O fato é que a oposição ganhou a batalha, mas, ao contrário de Pirro, não conseguiu enxergar o sofrimento humano. Mais uma vitória como esta e ficaremos sem a nossa seguridade social. Acredito que uma oposição madura, suprapartidária, aceitaria o desafio e exigiria serviços de primeiro mundo, sem filas, com atendimento à hora marcada e com revisão médica obrigatória. Tratado como gente, o contribuinte do INSS poderia finalmente se livrar dos abusivos planos de saúde privados. Mas tudo isso foi desprezado. Aliás, ficou um tradicional resíduo neoliberalista. Explico: ao tributar o consumo, diziam que a CPMF gerava inflação e reprimia a demanda. Com a sua extinção deixou-se de pagar os 0,38% diretamente sobre os saques, mas não há sinais de que viva alma da oposição tenha reclamado por redução de preços. Maldição, a CPMF ficou incorporada!!! (*) É contador.